Ariana aconchegou-se junto à lareira. Ela precisava confortar seu corpo, aquecê-lo de alguma forma. Ela não conseguia dormir... Ficou acordada, lembrando das mulheres da vila chamando-a de bruxa, de maligna. Isso a deixava triste, cansada, isolada com seus devaneios, que inevitavelmente a levavam para a imagem da barba bem desenhada de Lugh. Lembrava do abraço... Sempre mágico, como o abraço de um bom druida deve ser.
Ela o imaginava ali, ao seu lado, olhando para ela. Mesmo que parecesse loucura, Ariana sorriu, como se sorrisse para ele, imaginava-o sorrindo de volta:
- São tempos de guerra, Ariana. - ele disse.
- Sim, tempos de guerra. E você sabe, Lugh, que só venceremos a guerra com amor.
- Você e suas idéias de amor e beleza para nos salvar. Os exércitos inimigos chegam pelo Norte.
- E você chegou em minha casa sem que eu visse, como faremos se eles também chegarem como você?
- Eles não conhecem as nossas artes, minha querida.
- Como você pode estar aqui ao meu lado sempre que preciso de teu abraço?
- Nossas energias unidas são nossa única arma, nossos filhos, nossos pais, irmãos, todos nessa vila precisam saber que estamos unidos, do mesmo lado dessa batalha, energias unidas, minha amada.
- Lindo amigo. Como te amo. Mas eles nos odeiam. Venha, sente-se perto dessa lareira, o fogo nos ajudará. Vamos nos concentrar para saber como fazer tudo ser bom, belo e alegre.
- Quanta inocência, Ariana, você sabe que as guerras nunca terminam, elas são eternas.
- Eternas como nós, como o nosso amor.
Os olhos de Ariana se fecharam e ela sentiu o rosto de Lugh junto ao dela, ela podia sentir a respiração próxima. As bocas se aproximando. Ela abriu os olhos. Ele não estava tão perto, mas a olhava fixamente.
- Lugh?
- Sim, Ariana, você está perdendo a concentração.
- Estou um pouco confusa. Ainda não sei direito o que temos que fazer.
- Você sempre faz o que tem de ser feito, mesmo que não entenda num primeiro momento. O que você acredita que deve fazer agora?
Ariana olhou fixamente dentro dos olhos de Lugh e viu o Sol, o Deus mais poderoso, governante da terra, da morte e dos outros mundos. Ela então deixou que seu rosto fosse tomado nas mãos de Lugh. Suavemente... beijaram-se.
Beijaram-se vagarosamente, como a Lua que encontra o Sol, como um encontro de deuses, o que de fato eram. Enquanto a magia se espalhava pela casa, pelo jardim e por toda a vila, a concentração de Ariana e Lugh tornou-se mais forte.
Vento, raios, trovões. Uma tempestade chegava pelo sul.
Sem perceber o que acontecia fora do círculo mágico onde estavam, Ariana suspirou:
- Isso é tão bom. - Ela arranhava as costas do druida, tentando trazê-lo o mais perto possível, já impossível de ser mais perto, num abraço em que os dois quase se fundiam.
Tentaram fazer o momento ser eterno e quando já não conseguiam mais perdurar a ânsia de entregar-se completamente, Ariana lançou pelas pontas de seus dedos fagulhas incandecentes, como um feixe de luz. O feixe disparou em direção ao Norte.
Silêncio.
Silêncio.
E - BUM! Houve uma grande explosão.
Esse momento fez a respiração de Ariana paralisar-se - magia e satisfação.
Pela cabeça de Ariana rapidamente passou o pensamento de que tudo aquilo era só um sonho e que ela acordaria sozinha, abraçada ao travesseiro...
- Ariana, acorde, minha querida Deusa. Veja, você conseguiu mais uma vez.
- Hmm, o que eu consegui, meu querido Druida?
- Veja, ao Norte, uma parede de fogo, ninguém poderá passar... Nossa vila está salva.
- Salva? Mas eu... Eu estava sonhando...
- Não, você não sonhou. Você tinha razão.
- Verdade? Sobre o que eu tinha razão?
- O amor. O teu amor e a tua paixão conseguiram mais uma vez. É isso que te faz forte, minha querida.
- Forte? Mas sinto-me tão frágil nesse momento.
- Você busca suas forças mais poderosas no amor, claro! É isso.
- Amor, meu Druida? O amor venceu a guerra? Você acredita, agora, então?
- Sim, minha amiga, acredito.
- Se isso for um sonho não quero que acabe. Se você aceitar, eu poderia fazer algo mais interessante do que um simples beijo, o que acha?
- Sempre a mesma apaixonada, minha querida Ariana. Venha, deite-se em meu ombro e vamos observar o fogo que queima nessa lareira, você precisa descansar.
- Lugh, eu deito em seu ombro porque estou cansada, mas você não me escapa na próxima... Que venham todos os exércitos do mundo, pois eles não serão páreo para o que vou fazer com meu amigo Druida.
- Ha ha ha, sempre minha doce e fogosa Ariana. Um dia, minha querida, um dia...