Barro
Neste fim de semana eu fui trabalhar com barro para fazer uma peça que era importante para mim. Descobri várias coisas.
A primeira coisa que descobri foi que as mulheres de antigamente eram sábias, enquanto fiavam ou faziam outros trabalhos manuais, elas pensavam, refletiam, intuíam e descobriam coisas legais naqueles gestos simples e repetitivos que fazem parte dos trabalhos manuais.
Bom, mas eu acabei descobrindo outras coisas...
1. O barro precisa ser amassado, apertado, puxado até começar a tomar uma certa forma.
Nas primeiras tentativas o barro não ficava na forma que eu queria, então eu amassava tudo de novo, numa massa sem representação nenhuma, morta. Fiquei triste de ver tantas vezes o barro tomar forma e ter que voltar ao zero para recomeçar, mas eu não tinha como seguir adiante com a estrutura feita da forma errada.
2. Descobri que às vezes é melhor recomeçar do zero do que trabalhar na estrutura errada.
Depois de destruir a forma errada, eu recomeçava, tentando formas diferentes de chegar o mais próximo daquilo que eu tinha imaginado em minha cabeça. É difícil, pois não sou escultora, nem tenho muita intimidade com as artes. O barro resistia e eu pressionava mais. Percebi outra coisa: se eu pressionasse demais, a figura quebrava, então eu tinha que colocar a pressão que o barro fosse capaz de agüentar sem quebrar.
3. Descobri que quando trabalhamos com barro temos que conhecer a pressão que ele agüenta sem quebrar. Se quebrar, tem que começar do zero, tudo de novo.
Foram horas e horas de destruir tudo e começar de novo, apertando, alisando, batendo, acariciando, até que decidi fazer partes separadas para juntar tudo depois.
Um dos meus filhos olhou e falou: “mamãe, o que você está fazendo?” eu disse que queria fazer uma figura parecida com uma que a mamãe tinha desenhado no papel – e mostrei o desenho para ele. Ele viu as partes separadas, coçou a cabeça, fez uma careta e falou: “mamãe, não está nada parecido com o desenho, acho que não está certo”. Eu expliquei para ele que as partes separadas às vezes não fazem sentido, até que elas se juntem para formar a imagem final.
4. Descobri que às vezes as partes separadas parecem não fazer não sentido, pois não conhecemos os planos de quem está trabalhando o barro, mas sabemos que elas são muito importantes para o que se está construindo. Só entenderemos o que significavam aquelas partes quando visualizarmos o trabalho final.
Bom, finalmente cheguei na forma que eu queria, embrulhei em alumínio e coloquei no forno. Não podia ser muito tempo para não trincar, nem tempo de menos. Tudo tinha uma delicada forma de mostrar seus detalhes.
Deixei secando ao ar livre durante a noite.
Na manhã seguinte levantei a peça, vi que daquele jeito ela não ficava de pé, a base ainda não estava forte o suficiente. As pontas também, tinham se partido. Mas, tudo bem, eram detalhes que eu já esperava ter que ajeitar – reforcei as pontas, melhorei a base, o barro ainda não estava todo seco, então eu ainda podia trabalhar bem com a peça.
5. Descobri que mesmo quando achamos que o trabalho está pronto, ainda existem ajustes para que a peça se sustente sozinha.
O mais interessante dessa história toda foi quase no finzinho, quando eu acabava de ajeitar a base... Acho que exagerei um pouquinho na pressão e a peça se partiu ao meio, no coração.
6. Descobri que quando a gente não presta atenção, a parte que a gente achava que estava mais forte e que não precisava de cuidados, se quebra.
Consegui reunir tudo, a base, as pontas, o centro e deixei secando... Ainda não sei que resultado terei quando acabar de secar. Espero que dê certo porque descobri uma outra coisa:
7. Depois que o barro seca, não dá mais para juntar as peças, nem remodelar...
Meu filho finalmente perguntou: “mamãe, você demorou todo esse tempo, só pra fazer isso?” Eu sorri e disse a ele que a mamãe não é muito boa com essas coisas e que acaba precisando de um pouco mais de tempo para entender como certas coisas funcionam. O importante é que eu não desisti, nem fiquei triste com os contratempos e erros cometidos, entendi que eles me mostravam onde eu precisava mudar, melhorar, molhar, amolecer, endurecer, reforçar e acabei aprendendo bastante...
Trabalhos manuais são muito interessantes, afinal, somos feitos de barro, não é? Temos nossa própria resistência, nossas características e, aos poucos alcançamos nossa forma mais aperfeiçoada.
O mais importante desse aprendizado todo foi: seremos apertados, pressionados, às vezes acariciados, às vezes vamos precisar recomeçar do zero, vamos entender melhor onde a gente quebra mais fácil, onde somos mais fortes, onde pode por uma pressão um pouco maior, onde precisamos ter cuidado e nós precisaremos nos “molhar”, ou seja, precisamos preparar nossa matéria para nos mantermos maleáveis para sermos moldados, aceitando as pressões, apertos e carinhos que nos tornarão uma imagem que ainda não sabemos qual é. Foi isso que aprendi no meu trabalho com barro... Eu sou o barro!!!
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