04 May, 2010

Amor

Existe um erro grotesco naqueles que acham que o amor incondicional (de uma mãe, por exemplo) coloca de lado o amor que ela tem por sim mesma. Não é assim, porque ela aprende muito mais quando se torna mãe. Ela aprende que amar aos filhos, não substitui o amor que ela tem de si mesma, nem substitui o amor que ela possa sentir por qualquer outra pessoa. Ela se ama, sim. Justamente por amar-se, ela é capaz de reconhecer o conceito do amor, ela primeiro tem que reconhece-lo dentro dela, senão o amor verdadeiro não existirá, existirá exigência social de cuidar das crianças, moralmente exigidas a dedicar-se a um homem e assim por diante.

Mas a mãe perde a cabeça com os filhos, por vezes, sem dúvida. Que mãe nunca colocou um filho de castigo? Algumas optam, por vezes, pela palmada no bum-bum, outras pelo “tempinho pra pensar” ou a mais dolorosa forma de uma mãe amar: deixar seus filhos sofrerem as conseqüências daquilo que fizeram.

A função da mãe, como agente do amor, é orienta-los, pois esses pequenos seres dependem dela para saber qual estrada tomar. Ela avisa, orienta, serve de exemplo. Se a criança desobediente se machuca, quase sempre ouvirá um “bem-feito! Não falei pra você não fazer isso?” – e a mãe aos poucos vê que não tem jeito, os filhos irão aprender como ela aprendeu: tomando alguns tombos e evitando outros... é simples assim.

O amor – seja o amor de mãe, seja o amor amante, seja o amor amigo, ou qualquer outra forma de amor que pudermos pensar – estará sempre norteada pelos mesmos princípios. Meu amor é seu, quero seu bem e o que eu fizer será para o seu benefício. Se você fizer errado e se machucar, o amor não passará a mão na sua cabeça nem beijará as tuas feridas. O amor te fará ver que isso que você sofre hoje é resultado das suas próprias ações. A mãe, sabe, no fundo, que o filho vai aprender muito com aquele machucado.

O exemplo que a mãe dá a seus filhos pelo amor que sente por eles é o mesmo princípio que podemos usar no amor às outras pessoas. Quem não se respeita e não se ama, como pode amar e respeitar alguém?

A pessoa que ama reconhece os erros, os defeitos, a complexitude do ser que é amado, não fosse assim, estaríamos falando de paixões cegas, o que é algo totalmente diferente.

O amor reconhece as falhas, reconhece os perigos e coloca os limites. É muito mais gostoso para uma mãe aconchegar seu filho que chora na sua própria cama, e vê-lo dormir tranqüilo. Mas isso não é amor, isso é fraqueza. Amor verdadeiro é ensina-lo a dormir na própria cama, ainda que nas primeiras noites ele chore sem parar. Amar é ensina-lo que se ele não estudar para a prova ele terá que fazer aquela série novamente.

Amo meu marido, sim, amo. Ele ultrapassou um limite muito sério, sobre o qual ele foi avisado e cujas conseqüências ele conhecia. O amor que tenho por ele é a única forma que tenho para mostra-lo que a estrada dele, a partir daquele momento, passou a ser só dele, eu só aceitei ajuda-lo até aquele limite. Se eu não deixar que ele vá, não estarei amando. Estarei prendendo uma pessoa para satisfazer alguma outra coisa que não o amor. Os preceitos do amor mostram que a pessoa conhecia as conseqüências e optou por ultrapassar os limites. Por esse mesmo amor, entendo que o melhor que posso fazer por ele é não fazer mais nada, para que ele aprenda sozinho daqui pra frente.

Não deixo de amá-lo, pois isso me tornaria tão fria e vazia como ele acabou se tornando. Se eu respondesse com os mesmos termos às agressões que ele usou comigo, eu estaria deixando de amar para tornar-me agressiva como ele. Não quero ser como ele, é tão triste... Apenas tenho que deixa-lo ir, para que ele encontre o que for melhor para a vida dele, a nova estrada, que ele não mais seguirá ao meu lado.

É assim que funciona o amor. Ele só machuca se nós nos deixarmos machucar ou se não soubermos onde são os limites entre o amor e a total permissividade.

Amor não é ignorar as falhas nossas e dos outros – é reconhece-las e aprender com elas, para não fazer novamente.

Amor não é fazer de conta que não vemos os defeitos de quem se ama – é respeitar e aprender com eles para nos tornarmos pessoas melhores, lembrando que todos temos defeitos.

Amor não é estar o tempo todo à disposição de quem se ama, isso seria escravidão – mas estar presente de corpo e alma quando escolher estar na companhia de alguém.

Amor é simplesmente, desejar para o outro o que de melhor conhecemos e oferecer o melhor de nós mesmos aos nossos irmãos, cabe ao outro aceitar ou não o nosso amor.

Vamos nos tornar como eles? Ou vamos manter nossa essência de amá-los, mesmo que eles não entendam porque ainda assim os queremos bem?

Espero que todos consigam entender como é importante não ceder à raiva, à sede de vingança, à ira quando negam nosso amor, ou quando nos agridem. Mais importante que isso é olhar nos olhos de quem nos ataca e dizer: eu te amo, do jeito que você é e justamente por você ser assim, eu aprendo com teus erros e com teus acertos, agradeço por não ter em meu coração a raiva que te consome, quero do fundo do coração que essa sua raiva um dia te mostre um caminho melhor, ainda que para chegar lá, você precise passar pelo sofrimento. Sofro com você, porque sei como é triste a dor. Mas fico feliz de ver a sua evolução te dando uma nova chance de acertar, acerte dessa vez... Se um dia precisar de alguém para te acolher, se isso vier de dentro do teu coração, pode me procurar. Eu te oferecerei um abraço e um sorriso, vou te acolher se eu puder ajuda-lo, porque é isso que eu sei fazer. Se me faltarem condições, sei que você entenderá.

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