10 May, 2010

Diversão pouca é bobagem

Novas evidências sobre o clitóris e pesquisas de comportamento animal provaram que a mulher nasceu, sim, para ter prazer no sexo e que sua propagada vocação para a monogamia não passa de imposição cultural, sem nada a ver com sua programação natural.

“A concepção de que só os homens são poligâmicos é o maior mito da sexualidade”, afirmou a antropóloga Helen Fisher, da Universidade Rutgers, de Nova Jérsei, Estados Unidos. Em seu livro Anatomia do Amor, Helen concluiu que o adultério é tão comum entre nós quanto o casamento. É claro que muitas mulheres (e homens também) optam por ser fiéis. Mas isso é uma escolha, não uma imposição biológica. Em seu mais recente livro, Helen avança em suas conclusões, mostrando a face cultural de muitos axiomas tidos como naturais e sugerindo que a superação dos mitos vai guindar as mulheres, neste século, à condição de exercer papéis, inclusive sexuais, equivalentes aos dos homens – ou até de maior destaque.

Os mecanismos do orgasmo feminino são tão complicados que os médicos ainda estão longe de entendê-los. Exemplo: ninguém conseguiu arrumar uma boa explicação para o fato de haver orgasmos clitorianos e vaginais. A variedade orgástica feminina não pára aí. Há também os orgasmos múltiplos – algo que homem nenhum, por mais sensível, vai conseguir compreender. Na verdade, existem dois tipos de orgasmos múltiplos. Um é o multiorgasmo, no qual a mulher consegue emendar rapidamente cada clímax em uma nova fase de excitação e, assim, ter três ou quatro orgasmos seguidos. Mas, sorte mesmo, têm as poliorgásticas. Essas felizardas têm um êxtase depois do outro, sem precisar de novas fases de excitação, porque se mantêm num platô de tensão sexual por muito tempo. Todas as mulheres têm a possibilidade de ter um multiorgasmo, mas poucas provam um poliorgasmo, que depende de características inatas.

Tecnicamente, o orgasmo feminino é um reflexo do corpo, que se manifesta por contrações vaginais. Ele é resultado de uma combinação complexa de estímulos. “Podem ser visuais, imaginários, clitorianos, táteis...”, diz Sônia Penteado, ginecologista da Universidade de São Paulo.

A mente feminina tanto pode bloquear o prazer quanto produzi-lo. “Há casos de mulheres que chegam ao orgasmo só com o pensamento”, diz Sônia. As moças dão uma surra nos homens no quesito fantasia sexual. Elas tendem a ser bem melhores na hora de manifestar seu desejo... O homem só está preocupado em se manter firme”.

Essa sutileza psicológica feminina impede soluções fisiológicas simples àquelas que sofrem de distúrbios sexuais. “Por isso não há grande vantagem em criar um Viagra para mulher”, diz Sônia. É que o medicamento atua na irrigação sangüínea e não no desejo. Não que o sangue não seja importante para elas: um homem, para ter uma ereção, precisa de 100 ml de sangue. Já a mulher usa quase 1 litro para a lubrificação vaginal e o intumescimento do clitóris e dos grandes e pequenos lábios. Mesmo assim, na menopausa, quando a eficiência da circulação pélvica cai bastante, muitas mulheres não perdem a capacidade de sentir prazer, o que indica o quanto a mente é importante na libido feminina.

Cada vez mais os cientistas entendem como o desejo se manifesta nas mulheres, o que é ótimo. Para elas, porque ter consciência das potencialidades do próprio corpo é um grande passo para sentir mais prazer e ser mais feliz. Para os homens, bem, para os homens porque a possibilidade de o horizonte deste século estar repleto de mulheres bem-resolvidas, desejosas e felizes é uma grande notícia.

Fonte: Superinteressante edição n.º 157 – outubro/2000.

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