A noite continuava vazia. Havia um som de vozes que parecia estar tão próximo, mas estava realmente distante. Não haveria o dia seguinte, o dia seguinte, sendo sempre o seguinte, nunca chegaria. O mundo parecia girar mais depressa, mas ainda assim não alcançaria o dia seguinte.
Eugênia queria levantar-se da cama, esperando que o dia seguinte fosse melhor do que aquele. O despertador gritava aos seus ouvidos, não eram vozes, era o zumbido do rádio relógio soando ao seu lado por meia hora seguida e ela não escutava, pensava ser o som de vozes no seu sonho.
Acordou, por fim, tomou um banho frio para conseguir abrir os olhos, vestiu uma roupa qualquer e saiu. Não sabia para onde. Já não tinha emprego, não tinha família, não tinha amigos. Eugênia era uma pessoa sozinha, ingenuamente feliz porque ela acreditava que um dia tudo seria melhor. Ela acreditava que o dia seguinte chegaria.
Parou na padaria, pediu um “na chapa” e um café preto. Seu estômago já não se acostumava com comida, mas comeu porque acreditava que um dia estaria comendo em louças caras, num restaurante chique da cidade. Acreditava no dia seguinte.
Comia pacificamente quando chegaram cinco homens armados para assaltar a padaria, levaram Eugênia como refém. Enfiaram-lhe um capuz e a levaram para longe... Uma terra de ninguém. Andaram por muito tempo até chegar lá. Quando tiraram o capuz de sua cabeça ela só via árvores, plantas e uma casa. Lá ela foi conduzida a um quarto, ficou algemada a uma cama por horas a fio. Eugênia dormiu.
Já não era aquele dia, mas não sabia que dia era, as horas tinham passado rapidamente, os dias as semanas... Eugênia só comia o pedaço de pão que aparecia de vez em quando ao seu lado e bebia água. Mas ela ainda acreditava que o dia seguinte seria melhor do que aquilo.
Um dia o colchão apareceu sujo de sangue, mas ela não estava menstruada. Descobriu que o sangue vinha do seu corpo e que aqueles homens tinham lhe tirado a virgindade sem que ela soubesse. Eugênia dormia profundamente... Não se lembrava de nada, não sabia de nada, estava isolada do mundo, de tudo.
Continuou lá por dias, meses e sua barriga começou a crescer. Só poderia estar grávida. De quem? Dos homens. Homens cujos rostos ela nunca viu. Não sabia se de um deles, de dois, de todos... Eles entravam e saíam sem ela saber, sem que ela pudesse ver, sem que ela pudesse sentir. Eugênia morreu no parto de sua filha. Não haveria dia seguinte para Eugênia.
Os homens adotaram aquela menina como filha dos cinco, já que eles não sabiam qual deles era o pai. Não sabiam o nome da mãe, não sabiam de nada. Puseram o nome na menina de Vitória, já que não eram criativos, mas sabiam que aquela menina venceria. Venceria alguma coisa, um dia, no dia seguinte.
A menina cresceu em meio a homens, preservada, imaculada, como uma filha deve ser. Aprendeu a ler com um dos homens, aprendeu a atirar com outro, desenvolveu seus músculos sob orientação do terceiro, aprendeu os números com mais um, aprendeu sobre música com o último e aprendeu a ser livre sozinha.
Ficou com os homens durante quinze anos e partiu sem falar nada. Não sabia onde estava, não sabia que país era aquele, não sabia que caminho tomar, mas partiu, duvidando que haveria um dia seguinte diante daquelas incertezas todas. Mas seu desejo por liberdade era mais forte que as dúvidas. E foi.
Durante dois dias viveu em meio às árvores, se alimentando da comida que havia roubado de seus “pais” e sem água. Andava, andava indefinidamente. Até que chegou numa vila, uma pequena cidade bem próxima à floresta. Desmaiou na praça principal.
Acordou no dia seguinte, limpa, com roupas novas, numa cama, cercada de mulheres que se vestiam de preto e branco. O que eram mulheres? Por que elas eram tão diferentes dos cinco pais?
- Cinco pais? Essa criança deve estar com febre! – disse uma das mulheres.
- Eu tenho cinco pais, é verdade – respondeu Vitória.
- Querida, como é seu nome?
- Vitória. E o seu?
- Eu sou Madre Maria do Carmo.
- Que lugar é esse?
- Você está num convento. Segura, a salvo dos perigos da floresta. Você apareceu na praça principal da cidade, desmaiada, suja, fraca. Nós te recolhemos, te limpamos e te demos água. Agora você precisa comer e parar de repetir que tem cinco pais.
- Mas por quê?
- Ninguém tem cinco pais. Todos têm um pai e uma mãe.
- Mãe?
- Você não sabe o que é uma mãe?
Diante da negativa da menina as freiras explicaram como são feitos os bebês, aquela história de Adão, Eva, maçã, serpente...
- Não é serpente não, moça! Eu vi nos meus pais. Aquilo é o que eles usam pra fazer xixi. Serpente é na floresta que tem.
As freiras saíram do quarto e entraram em reunião para decidir o que fazer com a menina.
E a menina dormiu, sonhava com o seu jardim do Éden, a floresta, onde seus pais eram os únicos habitantes, fazendo as coisas do jeito deles, ninguém dizia que eles não eram seus pais. Eles comiam maçãs, pêras, mangas, alface, tomate, e nunca tiveram problemas com isso. Sonhava então com uma maçã enorme que queria devorá-la. Nunca mais comeu maçã na vida.
No dia seguinte as freiras retornaram ao quarto de Vitória e deram sua sentença:
- Você deverá ser adotada por um casal decente que possa te dar a educação que você precisa.
- Eu não preciso de educação, eu preciso de comida e água. Eu nunca usei essa coisa aí...
- Você será adotada.
As freiras mantinham a menina trancada no quarto dia após dia, alimentando-a de sopa e água. Vitória não acreditava existir nada melhor do que aquilo... Ela não precisava fazer nada e elas a serviam.
Até que um dia a tal madre entrou no quarto, acompanhada de um homem e uma mulher.
- Vitória! Esses serão seus novos pais. Venha conhecê-los.
- Eu já tenho pais... CINCO, não preciso de mais dois. E não são dois pais. É um pai e uma mulher.
- Essa mulher será sua mãe e o homem será seu pai. Agora, porte-se bem, pegue as roupas que você ganhou aqui no convento e vá com eles.
- Será tudo como era aqui? Eles vão me alimentar e cuidar de mim?
- Sim.
- Então eu vou.
Vitória não gostou daquela história, mas se as freiras não queriam que ela continuasse ali, o que ela poderia fazer?
O homem e a mulher a levaram para uma casa muito bonita, com dois quartos, um deles seria o seu. E no quarto Vitória encontrou roupas novas, bonecas, livros de contos, aparelhos que tocavam música, uma linda cama cor de rosa e uma janela com vista para a floresta.
- Eu gostei daqui!
- Que bom, minha querida. De hoje em diante eu serei sua mãe e ele será seu pai. Nós cuidaremos de você com muito carinho.
- Eu não verei meus pais novamente?
- Querida, você disse às freiras que tinha cinco pais homens. Você não sabe que para nascer uma criança é preciso que exista um homem e uma mulher apenas?
- Não pode ser. Os cinco diziam que eram meus pais. Eu não sei como é isso. A Madre falou de uma tal de Eva, uma maçã, uma serpente, mas eu achei tudo aquilo muito estranho.
A mãe passou então várias horas explicando como as coisas acontecem, o que é ser mãe, o que acontece com o corpo da mulher pra que isso possa acontecer, como funciona o corpo do homem. Enfim, convenceu Vitória de que deveria existir uma mãe.
A menina entrou em desespero. Havia uma mãe que ela não conhecia... Havia alguém que tinha posto seu corpo no mundo. Onde estava A MÃE?
Dormiu um sono agitado, tinha pesadelos, sonhava com maçãs e com o rosto de sua mãe, como seria? Por que cinco homens se só um podia ser o seu pai? Qual deles? Qual deles...
Passou os dias seguintes com a mãe na biblioteca da casa procurando respostas para suas dúvidas. Leu livros de biologia, anatomia, reprodução. O pai (o novo) era médico e tinha uma infinidade de livros sobre corpo humano para Vitória ler e ela descobriu que tudo o que a mãe lhe havia falado era verdade. Devia existir uma mãe. Uma mulher que a pôs no mundo junto com um de seus pais.
- Por que eles não me contaram que eu tinha uma mãe?
- Não sei, minha filha, não sei... Você sabe onde eles moram?
- Fica atrás da floresta, numa casa no meio das árvores.
A mãe ficou subitamente pálida. Calou-se e foi à cozinha começar a cozinhar.
- O que aconteceu? – perguntou Vitória.
- Você não está com fome? Vou preparar nosso almoço. O que você gosta de comer?
- Eu como qualquer coisa, menos maçãs porque não quero ter um filho. Mas o que eu fiz de errado? Por que você foi embora da sala quando eu disse onde morava? Você não gosta da floresta?
- Eu... não, não gosto da floresta. Lá é muito perigoso. Nunca mais volte à floresta, entendeu?
- Entendi.
Vitória não entendeu. Não podia entender o que haveria de tão perigoso, já que ela vinha de lá. Não entendeu também como é que aquela mulher estranha se achava no direito de mandá-la fazer ou deixar de fazer alguma coisa. Vitória não queria voltar à floresta porque estava cansada de viver lá, mas não tinha medo da floresta, nem de seus pais.
Passou a tarde vendo televisão. Nunca havia visto nada tão mágico. Uma caixa de luz onde as pessoas ficavam brincando de ser quem elas não eram, falando de coisas que aconteceram com pessoas que não são elas... Desenhos, notícias, novelas, filmes. Mas ainda havia um martelo em sua cabeça perguntando quem era a mãe...
No dia seguinte, estava resolvido, voltaria à casa de seus pais para perguntar onde estava a mãe. Dormiu novamente de modo agitado, querendo que o dia raiasse logo.
Assim que amanheceu, Vitória correu pelo corredor até a cozinha, tomou café da manhã com seus novos pais e disse:
- Hoje vou à floresta falar com meus pais.
- Não você não vai. Lembra do que conversamos ontem?
- Ela tem razão, Vitória. A floresta é um lugar perigoso, ninguém vai lá.
- Mas eu vim de lá, meus pais estão lá e eu tenho que falar com eles.
- Você não vai e ponto final, não perturbe mais a sua mãe sobre isso. Tchau, querida, já vou para o hospital.
- Hoje tem plantão, então, até amanhã.
- Tchau querido. Até amanhã.
- Tchau...pai.
Vitória já sabia o que tinha que fazer. Ia tentar convencer a mãe a ir com ela à casa da floresta. Se a mãe não fosse iria sozinha.
- Mãe?
- Você já me chama de mãe, que bom! Diga, minha filha...
- Eu prometo que nada de errado vai te acontecer, mas, por favor, me leva na minha antiga casa?
- Vitória, eu não posso. Eu não vou te levar na floresta.
-
Mas mãe, eu conheço bem a floresta. Não tem bicho perigoso, eu não vou me perder, eu conheço os caminhos.
- Eu conheço meus pais, eles não vão fazer nada pra nós.
- Vitória, eu não posso porque... Porque simplesmente eu não posso. Você entende? Eu não posso.
- Então eu vou sozinha.
- Não! Você não vai voltar lá, nunca mais, entendeu?
- Eu preciso saber quem é minha mãe. Saber qual deles é meu pai.
- Pra quê? Você já tem uma mãe, que sou eu. E já tem um pai. Por que você quer saber mais?
- Eu preciso e vou sem você.
- Não, espera. Deixa eu falar...
- Fala.
- Eu não devia, mas tudo bem. Há alguns anos, um grupo de cinco assaltantes, foi a uma cidade próxima daqui, eles assaltaram um banco, alguns estabelecimentos de comércio próximos ao banco e fugiram levando uma mulher. Havia um boato dizendo que esses assaltantes se escondiam nessa floresta, então, ninguém dessa cidade jamais teve coragem de entrar lá com medo dos assaltantes. E a polícia nunca conseguiu encontrar o caminho até a tal casa.
- Você acha que meus pais são assaltantes?
- Não sei, mas você agora entende meu medo?
- Não sei. Eles nunca fizeram mal nenhum pra mim. Me ensinaram a escrever, me alimentaram, me ensinaram a atirar, a cantar, a...
- Eles te ensinaram a atirar?
- Sim, quer que eu mostre como atiro bem?
- Não! Armas são muito perigosas. Você pode matar alguém usando uma. E eles te pediam alguns favores mais íntimos?
- Como assim?
- Nunca pediram pra você mexer no corpo deles, nunca mexeram em você?
- Não, eles sempre diziam que matariam quem mexesse comigo.
- Hummm, sei. E o que vocês faziam lá?
- Eles traziam comida pra mim, eu ajudava a arrumar a casa, cada dia um de nós cozinhava, eu sei cozinhar!
- Realmente, pelo que você me conta, eles foram muito bons pra você. Mas eles não atiravam nas pessoas que chegavam lá perto da casa?
- Não sei, acho que não, ninguém nunca foi lá. Me leva? Vamos conhecer meus pais?
- Eu não sei... Meu marido não ia gostar disso.
- Eu não falo nada pra ele, prometo!
- Ta bem, vamos, mas ficaremos pouco tempo.
- Vamos.
Vitória e sua mãe partiram no carro para a floresta. A mãe, assustada, olhando bem para o caminho para não se perder na volta. No fundo, no fundo, aquela vida bandida exercia uma certa atração nela. Cinco homens! Cinco homens num lugar abandonado por Deus. Onde não existia pecado, não existia vizinhos olhando, não existia ninguém, só os cinco homens. Ela sentia uma mistura de medo com ansiedade, tudo era aventura dali em diante.
Depois de andarem por algumas horas chegaram a uma trilha. Dali em diante teriam que ir a pé. Andaram por alguns minutos e chegaram à casa, vazia, ninguém por perto.
- E agora? Eles não estão aqui, Vitória!
- Daqui a pouco eles chegam, vem, entra comigo aqui na casa.
- Eles não vão se aborrecer se nós entrarmos?
- Não... Essa foi também minha casa. Vem.
Elas entraram e a mãe foi percebendo como tudo era limpo, arrumado, arejado. Entraram no primeiro quarto, dois beliches. No segundo quarto uma cama de casal.
- Esse era meu quarto...
- Com essa cama enorme? Alguém dormia com você?
- Não.
- Mas se eles são cinco e só tem mais quatro camas no outro quarto.
- É que cada noite um deles ficava acordado pra cuidar da casa.
- Sentinela.
- Acho que é isso. E aí, gostou?
- É tudo muito...
Um barulho de vozes interrompeu a frase da mãe. Os homens estavam chegando e já tinham visto a porta aberta. Sacaram as armas e entraram. A mãe segurou firme a menina e as duas se agacharam num canto da sala. A mãe fechou os olhos, tinha certeza que os homens iam atirar...
- Vitória!
- Pai! Não atira, sou eu.
- Ai que saudade, minha filha, onde você estava?
Todos se abraçaram, Vitória explicou o que tinha acontecido e explicou também quem era a “mãe”. Disse também ter descoberto que deveria existir uma mãe e só um deles podia ser o pai. Os homens se entreolharam e decidiram que um deles ia conversar com Vitória. Os outros quatro foram para o quarto e disseram para a “mãe” ir com eles. Ela foi.
- Vitória, sua mãe morreu quando você nasceu. Ela nem chegou a te conhecer. Mas nós não sabemos qual de nós é o pai. Por isso que decidimos todos cuidar de você.
- E como era a minha mãe? Bonita, inteligente, era como eu?
- Na verdade nós não sabemos como era ela.
- Não entendi.
- A sua mãe... a sua... Vitória, nós não conhecíamos a sua mãe. Ela ficou conosco por um acidente, ela não falava conosco, ela não tinha essa vivacidade que você tem, ela não tinha amor pela vida, entende?
- Então como foi que eu nasci?
- Nós somos cinco homens e homens têm algumas necessidades que só uma mulher pode oferecer, entende? Não, você não entende. Você não entenderia...
- Eu sei como são feitos os bebês, as freiras me ensinaram, mas eu achei que vocês tinham que se gostar pra que isso acontecesse.
- Temos, temos que gostar, sim, mas esse caso foi diferente. Esqueça tudo isso! Volte a morar aqui. Nós alguma vez te tratamos mal?
- Não, mas eu não sei... Agora eu tenho um pai só e uma m...
Nesse momento, Vitória ouviu um gemido vindo do quarto.
- Vocês estão machucando minha nova mãe! Seus bandidos.
Vitória correu para o quarto em tempo de ver a cena mais surpreendente da sua curta vida. A “mãe” com o sexo de um dos pais na boca, outro na sua frente, outro atrás e o último se esfregando em seu corpo. O pai que não estava no quarto puxou Vitória rapidamente de volta à sala.
- Não entre aí!
- Mas, o que está acontecendo? O que eles estão fazendo com minha nova mãe? O que estava acontecendo. Vocês estão machucando ela!
- Não, aquilo não machuca. Aquilo é bom tanto pra ela quanto pra nós, ela gosta disso, pode ter certeza. E um dia você vai gostar também. Mas por enquanto entenda uma coisa: Nós somos seus pais e gostaríamos que você voltasse a morar conosco. Agora, se você quer ir embora com essa mulher... a escolha é sua.
- Eu vou com ela. Eu gosto dela, mas eu quero que vocês me visitem também. Eu sinto saudades...
- Ah, minha querida... Como eu queria que seu pai fosse eu.
- Mas você é meu pai.
- Já que estamos conversando abertamente, vou te contar uma coisa: Eu nunca fiz nada com sua mãe. Eu não posso ser o seu pai, mas eu te amo como se você fosse minha filha e de mais ninguém. Você trouxe luz à minha vida, entende?
- Eu não sou filha sua?
- Você é minha filha. Você é a coisa que eu mais amo no mundo. Nunca diga que eu não sou seu pai. Fui eu quem te ensinou a escrever, a ler, lembra? Eu que cuidava de você quando você ficava doente... Eu te amo, minha filha.
- É tudo tão confuso pra mim... Por que você não quis ser meu pai? Por que você não quis nada com minha mãe? Ela não te agradava?
- Você tem quinze anos, eu tenho vinte e cinco. Quando você nasceu eu ainda era uma criança, além disso, eu sempre procurei fazer isso que eles estão fazendo com amor. Como a freira te ensinou, lembra? Eu não conhecia sua mãe, eu não faria isso com ela.
- E você não faz isso com mais ninguém?
- Já fiz. Eu tive algumas namoradas na minha vida. Mulheres que eu gostava muito. Mas foram poucas, duas ou três mulheres... Eu tenho que amar, entende?
- Acho que sim... Deixa eu ver o que eles estão fazendo agora?
- Não é bom que você fique vendo isso. Mas eu não te impeço de nada, você sabe.
- Eu não vou. Vamos dormir no sofá?
Os dois então dormiram fraternalmente enquanto a libido exalava do quarto.
Algumas horas depois, Vitória era acordada por sua mãe.
- Vitória. Vamos, já é tarde. Temos que voltar.
- Vamos. Tchau, meus pais queridos. Eu venho visitar vocês, sempre!
Novamente todos abraçaram a menina e as duas voltaram para o carro. Já estava escurecendo.
- Vitória, o que você conversou com seu pai?
- Ele me contou sobre minha mãe, contou sobre eles... E você, gostou do que fez?
- Como assim? Eu estava te esperando o tempo todo...
- Não, você estava fazendo outra coisa com meus outros pais enquanto eu conversava na sala. Eu vi.
A mãe freou o carro bruscamente. Estava pálida, com medo, novamente. Voltava à realidade.
- Você viu o quê?
- Vi você no quarto com meus pais. Colocando partes dos corpos deles na boca, no buraco de fazer xixi, no outro buraco, na mão... Eu vi. Quero saber se é bom.
- Você não viu isso. Você deve ter sonhado enquanto dormia no sofá.
- Não, eu vi, sei que vi, aquilo não era sonho não.
A mãe voltou a andar com o carro.
- Se você viu alguma coisa...
- Já disse que vi.
- Tá bem! Então não conte nada a seu pai, entendeu? Seu pai não pode saber de nada do que aconteceu lá. Ele não deve nem saber que viemos à floresta, entendeu?
- Entender, não entendi, mas não conto. Por que você não quer que eu conte? Não foi bom?
- Vitória, eu não quero mais falar nesse assunto com você, está bem?
- Eu estou começando a achar que seria melhor ter ficado com meus pais.
- Não diga isso. Você não sabe do que está falando.
O resto do caminho as duas permaneceram em silêncio. A mãe começava a acreditar que haveria um dia seguinte e que Vitória esqueceria de tudo aquilo. Vitória adorava tudo aquilo. Adorava aquele dia mais que todos os outros da sua vida. Não queria dormir, mas ao chegar na casa seus olhos já estavam fechando. A mãe também estava cansada.
Dormiram.
No dia seguinte Vitória ficou em seu quarto o tempo todo, não quis comer, não queria sair, nem ver televisão. Ficava parada e pensando... O dia inteiro. Quando o novo pai chegou em casa no final da tarde ele quis saber o que estava acontecendo.
- Vitória, vem cá.
- O que é?
- Sua mãe disse que você não comeu o dia todo, não saiu do quarto. O que está acontecendo?
- Não posso falar.
A mãe ficou pálida.
- Querida, o que está acontecendo?
- Acho que Vitória está doente. Não sei o que está acontecendo.
- Alguma coisa estranha aconteceu nessa casa. Alguém vai me explicar isso agora. Vitória, fala!
- Querido, acho que ela não está se sentindo bem, deixe ela ir para o quarto descansar.
- Eu estou ótima. Eu não estou sentindo nada de errado comigo. Só não quero comer.
- Vitória, não ligue para sua mãe, venha cá falar comigo. O que está acontecendo?
- Amor, deixa a menina em paz.
- Por favor saia da sala. Deixe-me conversar a sós com Vitória.
A mãe saiu com o carro. Sem destino, ou melhor, aparentemente sem destino.
- Agora me conte, Vitória, sente aqui em meu colo e me diga o que aconteceu.
- Ela não quer que eu conte.
- Esqueça o que ela disse. Ponha sua mãozinha dentro do meu bolso, isso, o que tem aí?
- Seu coisinho de fazer xixi.
- Você quer ver como ele é?
- Não.
- Mas eu vou te mostrar.
O pai, então abriu o zíper da calça e colocou seu membro pra fora.
-
Pegue nele.
- Eu não gosto.
- Pegue, eu vou te mostrar como ele fica grande.
Vitória fez o que seu pai pedia. Ele esfregava seu membro no corpo de Vitória, pediu para que ela o colocasse na boca, ela assim fez, mas não tirou a roupa dela. Só pedia para que ela mexesse e chupasse. E ela fazia.
- Você está gostando, Vitória?
- É estranho fazer isso.
- É estranho? Você não acha gostoso? Eu gosto tanto...
- A mãe também.
Pausa.
- Como assim? Por que você disse isso?
- Hoje eu fui com a mãe na casa dos meus pais.
- Vocês O QUÊ?
- É, fomos lá e, enquanto eu conversava com um dos meus pais ela ficou brincando disso com meus outros pais.
- Disso o quê?
- De pegar nisso deles, colocar na boca, ela colocava em outros lugares também. Colocou até no buraquinho de fazer cocô...
- Eu não acredito. Você está mentindo.
- Não estou, não! Eu vi tudo!
- E ela deixou você ver?
- Ela não sabia que eu estava vendo.
- Aquela vagab... Aposto que ela foi lá agora. Onde é? Me mostra.
- Eu não quero sair...
- Vamos.
O pai pegou Vitória no colo, colocou-a no carro dele e partiram para a floresta. Vitória ia chorando, dizendo que a culpa era da mãe, porque os pais nunca tinham feito nada daquilo com ela. Se fizeram com a mãe é porque ela gostava. Sem perceber, Vitória estava deixando o “pai”cada vez mais nervoso.
Chegaram. As luzes estavam acesas.
- Venha Vitória, vamos entrar.
- Você não vai machucar meus pais.
Vitória e o pai entraram na casa chutando a porta. Na sala estava o pai da leitura, aquele que não era seu pai. Vitória correu para abraçá-lo e disse:
- Esse homem me fez fazer com ele o que minha mãe fez com eles ontem...
Essas palavras foram como um comando de ataque nos ouvidos daquele pai que pulou sobre o falso pai. Os outros quatro, que estavam no quarto se divertindo com a mãe, saíram do quarto erguendo suas calças e começaram a bater naquele monstro que molestara a pequena Vitória. Até que surgiu a mãe, também se ajeitando, saindo do quarto praticamente sem roupa, sem entender o que estava acontecendo.
- Meu Deus! O que vocês estão fazendo com meu marido?
- Ele abusou de Vitória. Nós vamos matá-lo.
- Não, parem, parem, deixem ele em paz.
Os homens pararam e chutaram aquele resto de homem pra fora da casa. Empurraram a mulher e disseram para eles nunca mais voltarem lá. E os dois foram embora deixando Vitória com os cinco homens.
- Por que eles fizeram isso comigo?
- Não sei, Vitória. Mas você não voltará mais àquela casa.
- Eu quero ficar com vocês.
- Claro minha querida, claro. Você ficará aqui com a gente.
Na manhã seguinte os quatro pais tinham ido embora. Vitória e o único pai que não era pai ficaram sabendo mais tarde que eles haviam seqüestrado a “mãe” e mais três mulheres da cidade, assaltaram um banco e fugiram do país.
Daquele dia em diante, Vitória passou a viver sozinha com seu pai, aquele que não era pai, que acabou sendo o único pai que sempre existiu.
Os anos foram passando. O corpo de Vitória começou a mudar. Já era praticamente uma mulher aos dezessete anos. Mas sua cabeça ainda pensava como aquela menina que nunca deixou de ser.
O pai... Para facilitar, o nome dele era Marcelo. Enfim, ele arrumou um emprego num jornal da cidade. Ele e Vitória viviam muito bem. Vitória já cursava a escola como todas as crianças da cidade, sentia-se bem, não queria que chegasse um dia seguinte. Era feliz daquele jeito.
Um dia chegou uma carta de um país distante. Era dos outros pais, eles convidavam Marcelo e Vitória para passar um tempo com eles e suas esposas. Sim, eles haviam se casado.
Vitória queria conhecer um outro país, Marcelo também. Resolveram que ao final daquele ano, quando Vitória completasse dezoito anos e terminasse os estudos, iriam para o estrangeiro. Até lá juntariam dinheiro, providenciariam os documentos dos dois e iriam para longe.
O ano passava, Vitória estudava, trabalhava nos afazeres da casa. Marcelo trabalhava, ajudava Vitória, trazia a comida. Tudo estava perfeito.
Um dia, Vitória sentiu-se muito mal, estava muito doente e Marcelo ficou acordado ao seu lado a noite inteira. Vitória acordou nos braços dele. Enroscada como uma serpente num galho de árvore. Marcelo sentiu-se estranho. Aquilo era muito estranho. Estava excitado com a companhia calorosa de Vitória.
Quando Vitória acordou sentiu-se estranha, sentiu-se mais viva, ali, enroscada em Marcelo. Os dois se abraçaram por minutos e minutos. Tudo estava mudando. Mas eles só se abraçaram.
Faltava pouco para o dia da viagem, Vitória já acabara as aulas. E agora, todas as noites eles dormiam juntos, enroscados um no outro. Só dormindo. Mas às vezes suas mãos passeavam inconscientemente pelo corpo um do outro porque enquanto dormiam seus instintos vinham à tona e ali eles eram um homem e uma mulher.
E eles continuavam sentindo-se bem com tudo aquilo. Vitória não queria que chegasse dia diferente daquele e Marcelo também.
Eis que um dia, os dois passeavam de mãos dadas pela cidade, um passeio de domingo. Eles foram vistos pelo marido da ex-mãe que, após algum tempo de tratamento na capital voltava à cidade. Ele reconheceu prontamente Vitória e o homem que o deixara paralítico.
As pessoas da cidade não sabiam quem era Vitória, nem Marcelo, pensavam até que todos os integrantes do bando tinham fugido.
O ex-pai chamou a polícia e uma gente estranha que matava por dinheiro e Vitória não entendia mais nada. O que estava acontecendo?
Vitória e Marcelo correram para longe dali, fugiram para o aeroporto no primeiro ônibus que encontraram. Foi uma viagem estranha, a polícia estava anunciando a fuga dos dois a todos os rádios de comunicação. Vitória e Marcelo se angustiavam.
Na primeira parada desceram do ônibus, ficaram na estação por alguns minutos, roubaram um carro e fugiram. Nisso uma viatura policial que ficava de plantão na rodoviária começou a perseguí-los. Perseguição policial em alta velocidade nas estradas em direção ao aeroporto. Parecia coisa de filme americano.
Conseguiram despistar o policial, na verdade ele sofreu um acidente e agora já era noite. O aeroporto estaria muito vazio, eles seriam facilmente descobertos, decidiram continuar a jornada no dia seguinte.
Pararam num motel de beira de estrada para passar a noite. Escolheram a suíte mais simples, não queriam chamar a atenção de nada, ficariam lá até amanhecer.
Quando chegaram no quarto, Vitória resolveu tomar um banho, estava cansada, suja, angustiada. Marcelo ficou admirando aquele corpo se banhando. Alguma coisa definitivamente estava acontecendo com eles.
Marcelo entrou no chuveiro, tomaram banho juntos e ele estava ficando excitado, já não conseguia esconder. Vitória já não se importava porque também sabia que alguma coisa estava acontecendo.
Voltaram ao quarto e, ainda úmidos deitaram na cama e se beijaram. Vitória então disse:
- Marcelo, eu estou muito angustiada. O que vai acontecer com a gente?
- Eu não sei, Vitória, mas eu te protegerei como se a tua vida fosse a minha. Eu não sei o que pode acontecer, mas vamos ficar fortes, lembra? Um dia de cada vez. O dia seguinte não existe e temos que fazer acontecer hoje.
- Eu quero que aconteça tanta coisa, mas eu não sei bem o que. Meu corpo dói, minhas costas estão duras.
- Eu vou te relaxar, meu amor.
Marcelo começou então a acariciar as costas de Vitória, tocando cada poro, beijando cada centímetro daquele corpo nu, chegou com a boca ao sexo úmido da mulher que desabrochava a sua frente. Usava a língua, os dedos e Vitória já não estava mais nessa dimensão.
Vitória estava numa outra galáxia, sonhando com seu Jardim do Éden, aquele era o seu jardim, Marcelo, o Adão, ela era Eva, intocada, esperando para comer aquela maçã suculenta, entregue pela... pela... respirando fundo... pela... serpente. E que serpente!
Ficaram fazendo amor como dois anjos sem sexo, sem pudor, sem medo, sem malícia. Era o amor puro se concretizando naqueles dois corpos ondulantes. Puramente selvagens, inocentemente instintivos. E dormiram como se não lembrassem de seus pesadelos.
De manhã acordaram e novamente fizeram amor, demoradamente, se enroscavam como duas crianças brincando. Vitória estava no céu, Marcelo embriagado com tudo aquilo.
Roubaram um carro diferente e seguiram para o aeroporto. Vitória beijava o sexo de Marcelo enquanto ele dirigia. Quase sofreram alguns acidentes por causa disso. Ao chegar ao aeroporto tudo parecia tranqüilo. Desceram do carro e foram ao balcão da companhia de aviação. Pediram as passagens.
Teriam que esperar mais três horas até o embarque. Não conseguiam parar de se abraçar, beijavam-se, não suportavam ficar separados nem por alguns segundos.
Faltava só meia hora para o embarque, eles estavam excitadíssimos com tudo aquilo. O auto-falante então anunciou que todos deveriam passar pela revista da polícia para embarcar porque estavam procurando dois foragidos.
- E agora, Marcelo? Vamos ter que nos separar. Está vendo aquela senhora ali? Pegue a mala dela, lá deve ter muitas roupas, nos trocamos e tentaremos passar pela polícia.
- Não sei se é uma boa idéia. Se nos virem pegando a mala já saberão que somos nós.
- Ela está distraída lendo a revista, nem vai perceber.
Marcelo fez o combinado. Os dois se esconderam no banheiro, no mesmo banheiro. Lá fizeram amor novamente. Vitória vestiu um vestido estampado, muito folgado para ela, mas aproveitou o tamanho do vestido para fingir uma gravidez, preencheu o espaço folgado com outras roupas. Marcelo colocou óculos de grau, que prejudicavam sua visão, usou um lápis de maquiagem e desenhou um bigode em seu rosto, desenhou mais sobrancelhas, pôs uma pinta no rosto de Vitória que agora já usava até um chapéu. Estavam... ridículos.
Chegava a hora do embarque. Se abraçaram, se beijaram e se separaram.
Vitória seguiu para a fila de embarque e já enxergava a polícia lá na frente. Marcelo esperou que mais duas pessoas entrassem na fila e entrou também. Observou cada passo de Vitória. Ela passou sem problemas. Caminhando pelo corredor ela ainda pôde ouvir os guardas gritando. O bigode de Marcelo estava derretendo por causa do calor, ele suava e a maquiagem escorria. Os guardas perceberam.
Vitória queria voltar. Queria ficar com ele, morrer com ele se fosse preciso. Os guardas pediam para que todos andassem rápido para não atrapalhar a prisão do suspeito. Os olhos de Vitória se enchiam de lágrimas. Ela foi empurrada para dentro do avião. Ela chorava. Ela não sabia o que iria fazer sem ele. Ela já não seria capaz, ela não queria um dia seguinte sozinha.
Sentou-se na cadeira do avião. Ouviu-se um disparo e Marcelo apareceu na porta de entrada, seu rosto sangrava e ele caiu no chão.
Vitória segurou-se na poltrona. Seus olhos já não viam mais nada com todas aquelas lágrimas surgindo. Mas ela teve que segurar-se para não perder o controle. Desmaiou. A aeromoça pensou que ela estivesse dormindo, não a incomodou.
Vitória teve sonhos horríveis, maçãs, Marcelo morto, um caixão, seu ventre sangrando, sonhava com lobos e policiais. Revirou-se a viagem inteira. Não podia acreditar. Marcelo morto. Morto. Longe, ela não pôde fazer nada.
Não acordou até a chegada, naquele país distante onde estavam seus pais. Percebeu que estava dormindo encostada no ombro de um homem. Que vergonha! Havia dormido a viagem inteira no ombro de um desconhecido. Levantou-se devagar.
- Desculpe, moço, é que eu...
- Oi, Vitória.
- Marcelo...