01 January, 1992

A Lua

Me carreguei como uma onda no mar, com medo do teu abraço, com medo de te ver, com medo do que eu pudesse sentir. Me carreguei para o outro lado da praça, esperando o próximo passo, esperando você chegar e sorrir.

Mas o tempo não passava enquanto eu esperava você chegar. O relógio me incomodava na minha frente, os ponteiros iam devagar e sempre, em sentido oposto ao da gente.

Eu queria sentir teu cheiro, se eu pudesse sentiria o teu beijo apertando minha alma desesperada. Esmagando qualquer possibilidade de eu me reerguer depois daquilo.

Eu estava assustada. Mas sou uma mulher e não uma menina, eu fiquei de pé, me mantive erguida. Te cumprimentei, te oferecendo meu rosto, beijaste meu pescoço.

Me arrepiei e todos viam o que eu sentia, pensariam que eu era mais uma vadia, porque eu não tinha medo de te oferecer meu coração. E para eles eu não me oferecia, por isso eu era a vadia, porque para eles eu dizia ‘não’.

Eu queria você inteiro ao meu lado, como se afundássemos juntos num barco furado, nos deixando levar pelo que sentíamos e esquecendo daqueles que víamos.

Você me abraçou e disse:

- Vamos embora daqui, eu preciso sair desse lugar...

- Vamos mas não importa... eles vão nos encontrar...

- Por que, se é só você que eu quero?

- É noite. Vou na frente chego e te espero.

- Onde encontrarei teu corpo macio?

- Em um leito naquele vale sombrio...

- Me esperarás deitada?

- E nua, para ser por ti provada.

- Provada por mim?

- Claro que sim.

- Não resistirei.

- Não resista, ou morrerei.

- Vá, já te encontro. Ninguém saberá quem sou.

- Eu já não me importo com mais nada, mas vou.

Corri colina abaixo até o vale perto do rio. Tirei minhas roupas, tremia de frio. Deitei-me sob a lua, em uma pedra, toda nua.

Foi quando ouvi tua voz gritando meu nome, eu não entendia... Foi quando senti uma mão que me prendia. Eles chegaram, te prenderam, me amarraram. Te fizeram olhar, enquanto em mim metiam até gozar. De um em um, eles gritavam ‘vadia’, e eu chorando disse: ‘esperem que já vem o dia’.

E eles riam de mim e me rasgavam, mordiam meu corpo, meus olhos sangravam. Consegui unir todas as forças que restavam em meu corpo e gritei, com isso todas as ninfas, fadas e bruxas acordei.

Essas mulheres não suportavam o que viam e uniram suas mágicas contra os homens que riam. Um a um foram todos empalados, as varas saindo por suas bocas, seus ânus rasgados.

As mulheres cuidaram de mim, deixaram-me junto com meu amor, enfim. Cicatrizaram todas as feridas, me senti como se nunca fora fodida.

Nos jogaram um encanto de proteção que duraria enquanto respeitássemos os desejos do coração. Eu e meu amado fomos elevados por uma névoa amarela, levitando numa explosão de aquarela.

Vivemos o resto da eternidade naquele bosque onde tudo terminou e a pedra onde sofri minha tortura hoje é berço de amor.

Casais novos que se apaixonam e querem se amar vêm à pedra, sabendo que por eles nossas almas vão olhar...

Sonho?

Eu senti um calafrio como se alguém tivesse acabado de passar perto de mim, mas não havia ninguém lá. Meu corpo inteiro tremia e meus pêlos estavam arrepiados, como se fosse um dia de inverno. Eu precisava sair. Peguei o carro e cheguei a um apartamento não muito longe de onde eu estava. Toquei a campainha e um homem abriu a porta, sorriu e me disse para entrar.

O apartamento estava escuro, poucas luzes deixavam que eu visse o rosto de traços familiares daquele homem. De onde eu o conhecia?
- Vinho? – ele me perguntou.
- Claro! Eu adoro vinho... Estou com frio...
- Venha. Sente-se no sofá que vou trazer uma manta para te aquecer.
- Obrigada.
Em pouco tempo eu estava aquecida, pelo vinho, pela coberta, pelo olhar dele.
- Fazia tempo que você não aparecia – ele falou.
- Eu estive muito ocupada nesses últimos dias.
- Eu também, mas tanto faz, não é verdade?
- Tanto faz. Sempre foi assim, não é?
- É.
O homem segurou meu rosto e me beijou. Senti como se eu tivesse esperado séculos por aquele beijo, que me aqueceu completamente, mais que o vinho, mais que a manta. Meu corpo tremeu como num êxtase silencioso e secreto, novamente meus pêlos se arrepiaram e senti a mão firme que antes pegava meu rosto passeando pelas minhas costas, sob minha blusa. Suavemente deslizando pela minha cintura e tocando como um lençol de seda os meus seios.

Ele tirou minha roupa e me encostou de pé na parede, de frente pra ele. Meu corpo agora tremia novamente e ele se ajoelhou. Pediu que eu colocasse uma perna sobre seus ombros para que ele pudesse lamber meu sexo. Indecente, ele de roupas, no chão e eu nua, de pé, entregue. Eu agarrava seus cabelos puxando o rosto dele com mais força pra perto de mim, sentia a língua úmida e macia acariciando meu corpo, meu sexo, sentia a respiração dele em minha pele.

Enquanto meu corpo vibrava ao som de um orgasmo magnífico, ele começou a se despir e eu sabia que conhecia aquele corpo. De onde? Pelos céus! Que homem era aquele que me dominava sem nem mesmo eu lembrar quem era ele?

Ele me virou de frente para a parede, me abraçou com o corpo nu e eu pude sentir uma pica dura enfiando-se entre minhas coxas, acariciando meu sexo. Ele agarrou meus cabelos e puxou-os para o alto deixando minha nuca livre para que ele beijasse e lambesse, me deixando completamente fora de mim, meu corpo flutuava numa nuvem de prazer jamais vista. Ele se movimentava para frente e para trás, fazendo com que seu membro duro roçasse meu clitóris enquanto ele continuava beijando minha nuca, lambendo minhas costas e acariciando meus seios com sua mão livre.

Eu pedia mais. Eu queria mais, eu queria que ele me penetrasse ali, naquela hora, apenas que ele me penetrasse, parecia que nada mais no mundo importava, apenas queria sentir o corpo dele dentro do meu. Eu precisava de mais. Me ajoelhei para chupar sua pica e ele segurou meus cabelos com força, forçando minha cabeça para frente e para trás, impondo um ritmo enquanto minha língua se molhava ao saborear o membro duro e firme que eu já conhecia não sei de onde.

Eu chupava, chupava, ele parecia não se esgotar nunca, ainda forçando minha cabeça e falando com a voz já rouca:
- Chupa. Chupa minha vara, sua vagabunda. Chupa, chupa, vagabunda.

Eu fiquei tão excitada quando ouvi ele me chamar de vagabunda que nem me importava se ele pensasse que eu era uma vagabunda ou não. Eu precisava de mais, eu queria mais, nem que para isso eu tivesse que implorar. Com uma mão eu segurava a pica e com a outra comecei a me masturbar, não estava agüentando de tesão, estava toda molhada e imaginava que meu dedo poderia ser aquela pica gostosa que eu estava chupando.

- Ah, putinha, você vai ficar se masturbando, é? Tá excitada? A putinha tá gostando de chupar minha pica, ta? Vagabunda, eu devia te pagar pra fazer isso. Mete a boca, você chupa bem, putinha... Mas eu não vou te dar dinheiro, não. Vou te dar coisa melhor. Continua chupando minha vara e abre mais a perna pra eu poder ver você se masturbando. Olha pra mim. Isso. Eu quero ver teus olhos enquanto você me chupa. Ah, que boca gostosa.
Eu chupava, chupava, pensava que se ser uma puta fosse sempre assim, era o que eu queria. Comecei a chorar porque já não agüentava. Meu ventre explodia, eu precisava dele, já!
- Pelo amor de Deus! Mete essa pica dentro de mim! Eu preciso...
- Eu sei. Deita na cama.
- Vem logo, eu estou morrendo, eu preciso de mais, eu quero mais...
O homem então me penetrou e me senti como se todo o medo, a vergonha, a alegria, o prazer, a angústia de não saber o que eu estava fazendo sumissem, evaporassem, pra dentro pra fora, pra dentro pra fora, gozo... pra dentro, pra fora, eu arranho, ele agarra, eu mordo, ele beija, eu grito, eu grito desesperada, eu quero mais, não pára, eu gozo, eu grito, eu mordo, eu beijo, eu quero!
- Ah, não pára. Não pára. Eu quero mais, cachorro, filho da puta, me fode... - e minha voz sumia entre gemidos e palavras.
- Cachorro? A cadela aqui é você. Fica de quatro, minha vira-lata.
Fiquei de quatro, eu estava rendida. Suada, gemendo, não pára, não pára. Deixa eu te sentir mais, deixa... deixa... ahhhh... gozo... não pára, me deixa louca, me deixa louca... não pára. Ele agarrou meus cabelos como se fosse uma rédea de cavalo, com a outra mão segurava minha cintura e cavalgava... Meu ventre explodia... Eu não agüentava... Era o grande momento, sentia a pica dele pronta pra me alagar, eu gozava como nunca antes gozei, era isso, era a hora: “vem, goza, goza comigo, que tesão... aaahhhh...”
Engraçado que de transcrever esse sonho maravilhoso eu novamente começo a sentir aquele calafrio, meus seios ficando arrepiados, o ventre em chamas... Acaricio meus seios... sei que não, hoje não... Que pena... Quem sabe amanhã?

Neuroses e outras banalidades

Luana chegou em casa e viu Beto batendo uma punheta ao ler uma revista masculina... Foto de uma moça vestida de coelhinha safada... Depois de terminado o serviço, ela falou:

- Hmmm... Gostou da coelhinha, é?

- Só aliviando um pouquinho... Dando uma relaxada.

- Sei, sei... – e fez aquela cara enigmática que nenhum homem sabe o que significa.

- O que foi, meu amor?

- Acho que vou comprar uma fantasia de coelhinha pra mim.

- Ah, meu anjinho, que bobagem, você sabe que não é nada disso... Eu te amo de qualquer jeito, você não precisa de fantasia de coelhinha pra me agradar...

- Você não ia gostar de me ver de coelhinha?

- Lógico que ia, não é essa a questão... Você é a coelhinha mais linda e mais gostosa, sem precisar usar fantasia...

- Mas então, se você ia gostar de me ver fantasiada de coelhinha, porque você acha bobagem eu me vestir como uma pra te agradar?

- É que você me agrada assim, gosto de te ver como você é, gosto de você de qualquer jeito, até com aquela calcinha mais velhinha de algodão que você tem...

- Minhas lingeries não te agradam?

Aí foi ele quem fez aquela tradicional cara que todos os homens fazem diante da boa e velha confusão feminina...

- Como assim, meu amor, lógico que agradam... Acabei de falar que adoro você mesmo com aquela...

- CALCINHA VELHA DE ALGODÃO!!! Você acha que eu sou desleixada, não é? Então, ao invés de uma fantasia de coelhinha vou comprar uma lingerie bem sexy, com corpete, cinta-liga, meia 7/8, calcinha transparente... Que cor você gosta?

- Amor, não precisa de nada disso... Já te falei que te amo assim, do jeitinho que você é, não precisa comprar nada pra me agradar.

- Você não acha que eu ia ficar sexy de cinta liga?

- Amor, VOCÊ FICA SEXY DE QUALQUER JEITO. Você é minha gostosa, você me excita até de bobs no cabelo...

- Eu nunca usei bobs...

- Eu sei, é só um exemplo...

- Quem você conhece que usa bobs?

- Sei lá. Acho que ninguém...

- Como ninguém? Sua mãe usa bobs...

- É, isso, isso, minha mãe usa, é verdade...

- Por que você falou que não conhecia ninguém que usa bobs? Você ficou na defensiva... Você está saindo com alguém que tem cabelo ruim... Você está saindo com uma baranga!!! Você está me trocando por uma qualquer...

- Não estou saindo com ninguém.

- Eu não sou ninguém pra você??? Você não está saindo comigo? Não sou sua namorada?

- Você é meu tudo, você é minha linda! Não precisa de fantasia de coelho, nem de cinta-liga, você é gostosa assim do jeito que você é...

- Mentira!

- Ah, meu amor, não faz assim... Você sabe que eu te amo...

- Se você me ama e me acha tão gostosa assim, porque você prefere sair com o Pedro ao invés de me levar no Motel?

- É programa de meninos, tomar chopp, ficar falando de futebol, do trabalho... Ele tá numa fase difícil, você sabe... Sou amigo dele e tenho que dar uma força...

- E eu? Não sou sua amiga?

- Claro que é, meu amorzinho, mas é coisa de homem... Você também não gosta de sair e conversar com suas amigas?

- A maioria dos meus amigos é homem.

- Eles só querem te comer, você sabe disso...

Enquanto ela fica maravilhada com a idéia de que outras pessoas no mundo possam pensar nela como uma mulher atraente, sexy e que talvez até fantasiem com ela fantasiada de coelhinha, ela solta outra barbaridade:

- Aposto que o Tatu ia adorar me ver de coelhinha...

E ele devolve mais barbaramente ainda;

- É, ia ser engraçado você chegar na frente dele com aquele rabo branco de pompom pendurado na bunda!!!

Ela, então começa a chorar.

- Amor, é brincadeira. Olha, vem, vamos sair, vamos passear... Onde você quer que eu te leve hoje à noite?

- Snif, snif... Não quero sair... Você me acha gorda!

Novamente aquela cara de ponto de interrogação no rosto dele.

- Gorda? Como assim? Acabei de falar que te acho a mulher mais sexy do mundo!

- Você me acha gorda. Você acabou de falar que eu ia ficar ridícula vestida de coelhinha sexy...

- Não. Eu falei que ia ser engraçado você aparecer com rabinho de pompom na frente do Tatu.

- Você acha que ele não ia gostar, é? Aposto que ele ia ficar doidinho pra me comer.

- Lógico que ia. O cara não pára de dar em cima de você... Você podia chegar vestida de espantalho que ele ia querer te comer de qualquer jeito...

- É, eu devia dar pra ele, mesmo, você não me dá o devido valor.

- EU TE AMO! Já falei que você é a mulher mais sexy do mundo, você é minha gostosinha...

- Mas eu não sou gostosa suficiente para me vestir de coelhinha, né? Você se excita com qualquer mulher vestida de coelha, menos eu. Por quê?

- É diferente, meu amor. Essas mulheres das revistas estão lá pra isso, pra atiçar as fantasias masculinas, se vestem de coelhinhas, vampirinhas, tiram fotos com outras mulheres, só pra atiçar a libido masculina. São umas vagabundas...

- Mas então eu quero ser uma vagabunda, eu quero realizar uma fantasia sua. Me conte uma fantasia, vai...

- Que bobagem, docinho... Você já me satisfaz completamente...

- Então por que você vai nessas boates de strip e lê essas revistas?

- Já te falei. É só pra atiçar a fantasia dos homens... Todo homem gosta de ver duas mulheres juntas, por exemplo... Como um homem vai participar disso?

- Você quer me ver transando com uma amiga minha?

- Você está louca? Claro que não!

- Mas você falou pro Pedro que foi animal ver aquelas duas moças transando no palco do bar de strip.

- São duas vagabundas, meu amor...

- Você ficou excitado?

- Onde você quer chegar?

- Quero saber se você ficou de pau duro.

- Claro que fiquei, que homem não ficaria?

- Então, por que você não ia achar legal me ver com outra mulher?

- Você é minha namorada, não quero te ver fazendo essas baixarias, você não é nenhuma vagabunda...

- Não, é? Você vai ver.

- O que você vai fazer?

- Vou visitar o Tatu. Mas antes vou passar numa sex-shop e comprar uma fantasia de coelhinha.

- Você está louca?

Tarde demais, ela sai, entra no carro e sai dirigindo como um louco suicida. Chorando... Liga o rádio no último volume, gasta uma grana absurda na sex-shop, sai, pega o celular e liga pro Tatu.

- Alô? Tatu? É a Luana.

- Oi Lunny, tudo bem?

- Comprei uma fantasia de coelhinha...

- Que legal, Lu. Festa a fantasia?

- Não. É fantasia de sex-shop.

- Noooossa! Tá animadinha, é? O Beto vai adorar!

- Não, não vai. Ele disse que eu ia ficar engraçada de rabo de pompom.

- Então pra que você comprou a fantasia?

- Não sei... To tão triste...

- Puxa, Lu. Se fosse comigo...

- O quê? Se fosse com você, o que você faria?

- Se eu não tivesse marcado de sair com a Paulinha, ia te convidar pra vir aqui em casa, já! Há há há, até parece que você vinha...

Luana pensa: “eu vou, eu vou, eu vou, juro que vou e faço de tudo!”

- Você vai sair com a Paulinha?

- É, né, Lu... Sábado à noite... Vamos pegar um cineminha, motelzinho...

- Ta bom... Tchau Tatu. Me liga qualquer hora...

- Ligo, Lu... Conversa com o Beto. Vê se vocês se acertam...

Desesperada, Luana aumenta ainda mais o volume do rádio, chora como uma criança que teve o doce roubado. Começa a tocar aquela música bem antiga, bem brega, ela chora ainda mais, pensando que ela era uma infeliz mulher gorda que realmente ia parecer uma palhaça de fantasia de coelho, com aquele pompom na bunda...

Certeza que era por causa da celulite... Por que ela parou de fazer academia? E aquele pedaço de bolo de chocolate de ontem? Com calda!!! Que absurdo. Claro que o Beto não ia mais querer nada com ela, gorda e cheia de celulite daquele jeito. Coelha! Que absurdo! Quem ela estava querendo enganar? A diferença de ver as moças da strip de coelha e ela era nítida: as outras eram gostosas e ela não. Chorou, chorou, chorou e resolveu voltar pra casa.

- Lú, por onde você andou? Eu te liguei no celular e você não atendeu...

- Não estava com vontade de falar com ninguém.

- Onde você foi? Que pacote é esse? Seus olhos... Você estava chorando? Ah, meu amor, o que está acontecendo?

- Eu comprei a fantasia de coelha.

- Que gracinha! Põe pra eu ver?

- Não. Eu estou gorda, vou parecer uma idiota com essa fantasia.

- Você não está gorda. Você é uma delícia. Te acho uma gata. Gatona!

- Gatona, gordona, cheia de celulite na bundona!

- Tua bunda é gostosa...

- Gorda!

- Você nunca foi minhonzinha, né? Eu gosto de você assim. Você queria ser como aquelas modelos esqueléticas que não tem bunda?

- Queria! Buáááááá.... Minha bunda é enorme.

- Amor...

- Que foi?

- Põe a fantasia?

- Não. Tenho vergonha.

- Vergonha de mim? Eu te conheço há tanto tempo...

- Por isso mesmo. Você merece ter uma mulher gostosa, que nem essas da revista.

- Eu gosto de você. Põe a fantasia?

- Eu ponho mas não vai rir...

- Lógico que não vou rir, eu vou ficar tão excitado... Já estou ficando, só de imaginar você com ela.

- Vou por. Peraí.

Luana vai até o banheiro, sorri pro espelho, enxugando as lágrimas... “Vou ficar sexy de coelha! Coelhinha bem tarada”, veste a roupa, percebe que sempre fica uma barriguinha aparecendo. “Estou igual a uma coelhinha da Playboy... meio grávida...” Chupa a barriga, quase sufocando por não respirar. “Não, eu estou gostosa... é só passar uma água no rosto pra tirar esse vermelhão, se eu aparecer com a barriga pra dentro, empino o peito assim... Ah, droga, mas aí minha bunda parece ainda maior. Não, melhor eu ir naturalmente, ele vai gostar... Gorda! Por que você comeu aquele bolo?” Olha de um ângulo, vira pro lado, vira pro outro...

- Luuuuuu! Cadê minha coelhinha???? Vem, meu amor...

- Já vou!

Mais uma olhadinha. “É isso aí... Ele vai adorar, ele nunca conheceu uma coelha mais tarada que eu, mesmo com essa barriguinha, e esse bundão e... ai caramba! Minha bunda ta parecendo a Lua com tanta cratera!!! Ah, chega, eu vou...” Ela sai do banheiro, dirige-se à cama onde Beto a esperava ansioso.

- Noooooossa que coelha mais sexy! – e sorri de satisfação.

- Você está rindo. Eu sabia. Pareço uma porca e não uma coelha. Você odiou.

- Volta aqui. Você está linda! Sexy. Deixa eu ver o rabinho de pompom?

Luana virou o bum-bum pra ele.

- Hmmm, gostosa, vem cá pular comigo na cama vem, coelhinha?

- Eu vou. Jura que você não me acha ridícula nessa roupa?

- Você está uma delícia, vem. – ele sorriu.

- Você está rindo de mim. Estou ridícula!

- Estou rindo de satisfação de ter uma namorada tão gostosa.

- Mesmo?

- Mesmo. Vem?

- Eu vou... Saltitandooooooooooo... yupiiiiiiiiii.

Final Fantasy

As nuvens se entreolhavam negras no céu enquanto Samantha colhia morangos no quintal dos fundos de sua casa. Era uma tarde quente de verão, mas os céus prometiam chuva e trovoadas ao anoitecer.

Samantha mora numa casa de barro no meio da Floresta de Blackwoods, norte da Inglaterra, onde dizem que habitam as bruxas, mas não, nada disso, ela é apenas uma mulher de vida simples, que vive sozinha colhendo seus alimentos e tecendo cestos e tecidos para vender às mulheres da cidade. Às vezes alguns homens aparecem por lá, acreditando ser ela uma feiticeira e esperando um encantamento que os deixem mais fortes, mais bonitos, mais poderosos... Mas a única coisa que Samantha pode fazer por eles... ela faz, que é deixá-los mais fortes, mais bonitos, mais poderosos por algumas horas, depois eles vão embora acreditando que aquilo é pra sempre e Samantha continua feliz a sua vida pacífica.

Naquele dia, depois de recolher os morangos para o interior da casa, Samantha se lavou e pôs-se a cozinhar uma sopa de ervas que facilitava seu relaxamento e sua meditação, eram ervas da floresta, com cogumelos e flores também. O perfume da sopa assemelhava-se ao cheiro de absinto, o que deixava Samantha com muita vontade de que um daqueles homens da cidade viesse visitá-la naquela mesma hora.

Ao anoitecer, as nuvens que antes se entreolhavam no céu entraram em conflito e começou a chover torrencialmente, com trovões e relâmpagos. Mas Samantha não se assustava, porque conhecia bem as tempestades de verão daquela floresta, acendeu uma vela e terminou de preparar a sopa, servindo uma porção num prato fundo.

Ela pegou seu prato, uma colher, a vela acesa e sentou-se numa espécie de poltrona – na verdade um monte de feno encoberto por um tecido macio – diante de um espelho comprido que ela mantinha na sala. Enquanto tomava a sopa, ela se olhava no espelho, via uma moça de 20 anos de pele clara, de olhos azuis, traços finos... Era ela, logicamente, o que mais ela poderia ver num espelho?

Quando terminou sua sopa, sua mente já estava em transe, ela continuava olhando o espelho e teve vontade de beijar a moça da imagem, o perfume de absinto já havia tomado conta de sua casa e ela, agora mais que nunca, precisava que um daqueles homens da cidade aparecesse, mas quem apareceria em meio a uma tempestade daquelas?

Ao mesmo tempo, a moça do espelho parecia tão bonita e Samantha percebeu que tudo o que fazia a moça da imagem repetia, ficou contente em ter uma companhia. Ficou de pé e desamarrou o vestido, deixando que ele caísse ao chão – a imagem fez o mesmo. Samantha começou a tocar seus seios arredondados, não eram nem grandes nem pequenos e seus mamilos, enquanto eram acariciados, ficavam duros, o que fazia com que ela sentisse ainda mais prazer em acariciá-los. A moça do espelho fazia o mesmo, sempre.

Samantha sentou-se novamente e abriu suas pernas diante do espelho, a imagem também. Viu que abaixo de seus pelos encontrava-se uma pele rosada, úmida. Tocou seu sexo com os dedos da mão direita enquanto a outra mão continuava a acariciar-lhe os seios – sempre olhando sua amiga do espelho. Samantha já começava a sentir mais e mais a umidade de seu sexo, aquilo que ela estava fazendo lhe dava muito prazer, ela não tinha vontade de parar, mas, neste momento, ouviu um grito ao longe e um som como de uma queda. Por alguns instantes Samantha ficou irritada por ter que interromper ritual tão belo, mas enfiou seu corpo numa camisola branca de algodão e abriu a porta para ver o que acontecia.

No horizonte escuro, em meio a flashes de raios e relâmpagos ela pôde distinguir a imagem de um cavalo correndo, fugindo e viu a imagem de um homem no chão. Samantha correu em meio aos pingos agressivos daquela chuva quente na direção do corpo caído. Não estava tão longe quanto ela imaginava.

Quando alcançou o homem, agachou-se, mas não conseguiu ver seu rosto porque, além da escuridão e da chuva, os cabelos longos dela e dele se misturavam, escondendo os rostos dos dois. Ajudou o homem a se levantar e levou-o até sua casa.

Quando adentraram a casa, Samantha pediu que o homem se sentasse na poltrona e foi buscar um pano para que ele se secasse:

- O senhor está ferido?

-
Não, não me machuquei. Meu cavalo, que sempre foi tão bom companheiro, assustou-se com um trovão e saiu em disparada me derrubando, mas não aconteceu nada comigo, senhora, minhas costas doem um pouco, é só.

-
Venha, tire essa roupa molhada, seque-se e enrole-se neste cobertor, o senhor terá que me desculpar porque não tenho roupas de homem em minha casa, você terá que esperar até que as suas roupas sequem.

-
Eu prefiro não me despir.

-
Por quê? É importante que a umidade não fique em contato com o corpo, você pode ficar doente se continuar vestido. Vamos, eu te ajudo, já vi homens nus, você não tem nada para esconder de mim.

-
Eu não posso, não p...

Era tarde, Samantha já havia começado a tirar as roupas do homem e percebeu porque ele não queria isso. Samantha esqueceu que estava vestida com uma camisola branca de algodão e que na chuva o tecido branco fica transparente. Quando aquele homem viu os contornos do corpo de Samantha transparecerem pelo tecido molhado sentiu uma atração tão forte que seu membro ficou enrijecido. Então Samantha entendeu porque ele não queria tirar as roupas, mas ele não tinha nada do que se envergonhar, ela nunca tinha visto membro tão belo em sua vida.


-
Meu senhor... Isso... é enorme, eu nunca...

-
Venha, dê-me a toalha para que eu me seque e vou me enrolar no cobertor, não vou fazer nada que você não queira, não sou um tipo de monstro, você me salvou, onde mais eu acharia abrigo numa noite destas no meio da floresta? Não se assuste com meu membro.

-
Assustar? Ele é lindo... Mas, sim, seque-se, vou trocar de roupa também e vou servir um prato quente de sopa para que o seu corpo fique aquecido.

-
Esse perfume...

-
É a sopa. Já volto.

Depois de alguns minutos, Samantha voltou vestida com uma manta negra e com um prato de sopa nas mãos. O homem, agora seco, parecia a Samantha a figura mais bonita que ela já vira na Terra. Ele tinha cabelos longos e negros como a noite, como um cavaleiro deve ter, não tinha barba, mas seu corpo era coberto de pelos negros sobre uma pele queimada de sol. O cobertor só tampava da cintura para baixo o que fez com que Samantha não conseguisse tirar os olhos do tórax do cavaleiro.


-
Tome, sua sopa.

-
O que tem nesta sopa?

-
Nada que possa te fazer mal e calor que te fará bem, vamos, tome. Ela vai te aquecer e te relaxar, você pode dormir aqui na sala e amanhã pela manhã procuraremos um meio de te levar de volta à cidade.

-
A sopa está uma delícia... e esse perfume... está embriagando meus sentidos...

-
Sim, parece, é uma sopa especial, que preparo quando quero relaxar.

-
Sim, entendo. Me sinto tão... Quem é aquela moça no quadro? Ela se move?

-
Não é quadro, é um espelho refletindo minha imagem. Sou eu, vês?

-
Sim, claro, acho que a sopa, o perfume, estou me sentindo estranho... Existe um outro cheiro...

-
Não sei que cheiro pode ser esse, meu senhor...

-
Um cheiro, sim, um cheiro extasiante... Espere, vem de você. Dê-me sua mão.

-
O que há na minha mão?

-
Deixe-me sentir seu cheiro.

Samantha ficou um pouco envergonhada porque era justamente a mão que ela estava usando para acariciar seu sexo antes da chegada do homem.


-
Sim, é esse cheiro, o que você colocou na sua mão para ter esse cheiro?

-
Eu... É que... bem, antes de ouvir o grito... eu...

-
Você se acariciava, meu anjo? Esse cheiro é do seu sexo?

-
Eu... eu...

-
Não tenha vergonha, isso é lindo. Por que você não continua fazendo o que estava fazendo antes de eu aparecer? Deixe me ver essa forma tão bela se acariciando e sentindo prazer...

-
Eu havia terminado meu prato de sopa e comecei a olhar no espelho, tirei minha roupa...

Samantha repetiu tudo o que estava fazendo antes do cavaleiro aparecer. Tirou o vestido e, novamente, o cheiro de absinto invadiu seu corpo, Samantha tocou seus seios, novamente seus mamilos ficaram rígidos, e a imagem no espelho acompanhava, e ela olhava. Os cabelos longos e loiros de Samantha corriam por sua pele até a cintura, refletindo a luz da vela que queimava já mais fraca.


Samantha sentou-se na poltrona de feno ao lado do seu cavaleiro e abriu suas pernas diante do espelho, começou a acariciar seu sexo, agora mais freneticamente porque sentia uma outra energia no ar, sentia a presença e o cheiro de um homem em sua casa. Com a outra mão ainda acariciava o seio, ela olhava tudo pelo espelho, como se estivesse acariciando a sua imagem e o cavaleiro não tirava os olhos da mulher de carne e osso que transpirava prazer ao seu lado. O cheiro de absinto e as carícias em seu corpo deixavam Samantha fora de si e ela, sem perceber, gemia e se contorcia, até que o seu companheiro pediu:


-
Senhora, quero ajudá-la a sentir mais prazer, posso?

-
Sim, meu cavaleiro solitário, beije meu outro seio.

-
Sim, eu beijo, você salvou minha vida e agora podes me pedir o que quiseres.

-
Beije, beije com sua língua macia esse meu seio rígido.

-
Tua carne é perfumada, senhora, que seios deliciosos, deixe-me provar mais do teu corpo.

-
Venha, venha e beije meu sexo, acaricie essa pele rosada com seus lábios e sua língua.

O cavaleiro, então levou a boca dos seios para a barriga e da barriga para o sexo úmido de Samantha. A imagem no espelho acompanhava os dois, mas o cheiro de absinto e torpor sexual da sala fizeram com que a imagem de Samantha saísse do espelho e começasse a sugar o membro longo e rígido do cavaleiro enquanto ele chupava o sexo de Samantha.


-
O que é isso? Que tesão! Como você fez isso?

-
O quê? Ah, sim, já te falei, sou eu... continue, é só minha imagem, ela vai se juntar a nós, isso, continue, não pare... Ai que tesão estou sentindo... chupe mais, enfie a sua língua dentro de mim... Não pare...

-
Não sou louco de parar, isso é maravilhoso, que tesão... quero colocar meu membro dentro de você, quero te ver gritar de prazer, meu anjo...

-
Venha, enfie tudo dentro de mim... Me faça chegar aos céus...

O homem então deitou Samantha na poltrona e, ajoelhado no chão, colocou nela seu membro duro enquanto a imagem acariciava o corpo do cavaleiro com as mãos e lambia os seios e o pescoço de Samantha delicadamente.


O homem já não sabia se olhava para a imagem que lhe acariciava o corpo ou para a mulher que se contorcia de prazer atiçada pelos movimentos do seu membro. Samantha gritava, gemia como se estivessem lhe dando o néctar da vida, a terra tremia e a luz branca da vela transformava-se em púrpura, azul, rosa, vermelho... Quando achou que seu ventre explodiria de tanto prazer... ele explodiu... Samantha teve o maior e melhor orgasmo da sua vida... ela foi aos céus e voltou em tempo de ver sua imagem sugando as últimas gotas de gozo que ainda saíam do membro do cavaleiro.


-
Volte para seu espelho, imagem, deixe eu provar um pouco do néctar deste homem enviado pelos deuses.

-
Néctar, meu anjo? Se isso é néctar e se você gosta eu posso te satisfazer com ele todos os dias da minha vida.

-
Eu viveria disso para o resto da minha...

Enquanto os dois corpos nus descansavam na poltrona, a chuva foi se acalmando e a imagem, que ainda não havia voltado para o espelho, silenciosamente caminhou até a vela e apagou-a, para que os dois descansassem...


Na manhã seguinte, o cavaleiro acordou sozinho na sala, ainda em estado de torpor, não encontrou ninguém dentro da casa. Ficou preocupado em não ver seu anjo por ali, foi quando percebeu um movimento no espelho da sala. Aproximou-se para ver o que era e viu duas imagens de Samantha se beijando.


Quando as imagens perceberam que eram observadas, acenaram um adeus ao homem e caminharam juntas para dentro do espelho até desaparecerem...

A HISTÓRIA DE EUGÊNIA

A noite continuava vazia. Havia um som de vozes que parecia estar tão próximo, mas estava realmente distante. Não haveria o dia seguinte, o dia seguinte, sendo sempre o seguinte, nunca chegaria. O mundo parecia girar mais depressa, mas ainda assim não alcançaria o dia seguinte.

Eugênia queria levantar-se da cama, esperando que o dia seguinte fosse melhor do que aquele. O despertador gritava aos seus ouvidos, não eram vozes, era o zumbido do rádio relógio soando ao seu lado por meia hora seguida e ela não escutava, pensava ser o som de vozes no seu sonho.

Acordou, por fim, tomou um banho frio para conseguir abrir os olhos, vestiu uma roupa qualquer e saiu. Não sabia para onde. Já não tinha emprego, não tinha família, não tinha amigos. Eugênia era uma pessoa sozinha, ingenuamente feliz porque ela acreditava que um dia tudo seria melhor. Ela acreditava que o dia seguinte chegaria.

Parou na padaria, pediu um “na chapa” e um café preto. Seu estômago já não se acostumava com comida, mas comeu porque acreditava que um dia estaria comendo em louças caras, num restaurante chique da cidade. Acreditava no dia seguinte.

Comia pacificamente quando chegaram cinco homens armados para assaltar a padaria, levaram Eugênia como refém. Enfiaram-lhe um capuz e a levaram para longe... Uma terra de ninguém. Andaram por muito tempo até chegar lá. Quando tiraram o capuz de sua cabeça ela só via árvores, plantas e uma casa. Lá ela foi conduzida a um quarto, ficou algemada a uma cama por horas a fio. Eugênia dormiu.

Já não era aquele dia, mas não sabia que dia era, as horas tinham passado rapidamente, os dias as semanas... Eugênia só comia o pedaço de pão que aparecia de vez em quando ao seu lado e bebia água. Mas ela ainda acreditava que o dia seguinte seria melhor do que aquilo.

Um dia o colchão apareceu sujo de sangue, mas ela não estava menstruada. Descobriu que o sangue vinha do seu corpo e que aqueles homens tinham lhe tirado a virgindade sem que ela soubesse. Eugênia dormia profundamente... Não se lembrava de nada, não sabia de nada, estava isolada do mundo, de tudo.

Continuou lá por dias, meses e sua barriga começou a crescer. Só poderia estar grávida. De quem? Dos homens. Homens cujos rostos ela nunca viu. Não sabia se de um deles, de dois, de todos... Eles entravam e saíam sem ela saber, sem que ela pudesse ver, sem que ela pudesse sentir. Eugênia morreu no parto de sua filha. Não haveria dia seguinte para Eugênia.

Os homens adotaram aquela menina como filha dos cinco, já que eles não sabiam qual deles era o pai. Não sabiam o nome da mãe, não sabiam de nada. Puseram o nome na menina de Vitória, já que não eram criativos, mas sabiam que aquela menina venceria. Venceria alguma coisa, um dia, no dia seguinte.

A menina cresceu em meio a homens, preservada, imaculada, como uma filha deve ser. Aprendeu a ler com um dos homens, aprendeu a atirar com outro, desenvolveu seus músculos sob orientação do terceiro, aprendeu os números com mais um, aprendeu sobre música com o último e aprendeu a ser livre sozinha.

Ficou com os homens durante quinze anos e partiu sem falar nada. Não sabia onde estava, não sabia que país era aquele, não sabia que caminho tomar, mas partiu, duvidando que haveria um dia seguinte diante daquelas incertezas todas. Mas seu desejo por liberdade era mais forte que as dúvidas. E foi.

Durante dois dias viveu em meio às árvores, se alimentando da comida que havia roubado de seus “pais” e sem água. Andava, andava indefinidamente. Até que chegou numa vila, uma pequena cidade bem próxima à floresta. Desmaiou na praça principal.

Acordou no dia seguinte, limpa, com roupas novas, numa cama, cercada de mulheres que se vestiam de preto e branco. O que eram mulheres? Por que elas eram tão diferentes dos cinco pais?

- Cinco pais? Essa criança deve estar com febre! – disse uma das mulheres.

- Eu tenho cinco pais, é verdade – respondeu Vitória.

- Querida, como é seu nome?

- Vitória. E o seu?

- Eu sou Madre Maria do Carmo.

- Que lugar é esse?

- Você está num convento. Segura, a salvo dos perigos da floresta. Você apareceu na praça principal da cidade, desmaiada, suja, fraca. Nós te recolhemos, te limpamos e te demos água. Agora você precisa comer e parar de repetir que tem cinco pais.

- Mas por quê?

- Ninguém tem cinco pais. Todos têm um pai e uma mãe.

- Mãe?

- Você não sabe o que é uma mãe?

Diante da negativa da menina as freiras explicaram como são feitos os bebês, aquela história de Adão, Eva, maçã, serpente...

- Não é serpente não, moça! Eu vi nos meus pais. Aquilo é o que eles usam pra fazer xixi. Serpente é na floresta que tem.

As freiras saíram do quarto e entraram em reunião para decidir o que fazer com a menina.

E a menina dormiu, sonhava com o seu jardim do Éden, a floresta, onde seus pais eram os únicos habitantes, fazendo as coisas do jeito deles, ninguém dizia que eles não eram seus pais. Eles comiam maçãs, pêras, mangas, alface, tomate, e nunca tiveram problemas com isso. Sonhava então com uma maçã enorme que queria devorá-la. Nunca mais comeu maçã na vida.

No dia seguinte as freiras retornaram ao quarto de Vitória e deram sua sentença:

- Você deverá ser adotada por um casal decente que possa te dar a educação que você precisa.

- Eu não preciso de educação, eu preciso de comida e água. Eu nunca usei essa coisa aí...

- Você será adotada.

As freiras mantinham a menina trancada no quarto dia após dia, alimentando-a de sopa e água. Vitória não acreditava existir nada melhor do que aquilo... Ela não precisava fazer nada e elas a serviam.

Até que um dia a tal madre entrou no quarto, acompanhada de um homem e uma mulher.

- Vitória! Esses serão seus novos pais. Venha conhecê-los.

- Eu já tenho pais... CINCO, não preciso de mais dois. E não são dois pais. É um pai e uma mulher.

- Essa mulher será sua mãe e o homem será seu pai. Agora, porte-se bem, pegue as roupas que você ganhou aqui no convento e vá com eles.

- Será tudo como era aqui? Eles vão me alimentar e cuidar de mim?

- Sim.

- Então eu vou.

Vitória não gostou daquela história, mas se as freiras não queriam que ela continuasse ali, o que ela poderia fazer?

O homem e a mulher a levaram para uma casa muito bonita, com dois quartos, um deles seria o seu. E no quarto Vitória encontrou roupas novas, bonecas, livros de contos, aparelhos que tocavam música, uma linda cama cor de rosa e uma janela com vista para a floresta.

- Eu gostei daqui!

- Que bom, minha querida. De hoje em diante eu serei sua mãe e ele será seu pai. Nós cuidaremos de você com muito carinho.

- Eu não verei meus pais novamente?

- Querida, você disse às freiras que tinha cinco pais homens. Você não sabe que para nascer uma criança é preciso que exista um homem e uma mulher apenas?

- Não pode ser. Os cinco diziam que eram meus pais. Eu não sei como é isso. A Madre falou de uma tal de Eva, uma maçã, uma serpente, mas eu achei tudo aquilo muito estranho.

A mãe passou então várias horas explicando como as coisas acontecem, o que é ser mãe, o que acontece com o corpo da mulher pra que isso possa acontecer, como funciona o corpo do homem. Enfim, convenceu Vitória de que deveria existir uma mãe.

A menina entrou em desespero. Havia uma mãe que ela não conhecia... Havia alguém que tinha posto seu corpo no mundo. Onde estava A MÃE?

Dormiu um sono agitado, tinha pesadelos, sonhava com maçãs e com o rosto de sua mãe, como seria? Por que cinco homens se só um podia ser o seu pai? Qual deles? Qual deles...

Passou os dias seguintes com a mãe na biblioteca da casa procurando respostas para suas dúvidas. Leu livros de biologia, anatomia, reprodução. O pai (o novo) era médico e tinha uma infinidade de livros sobre corpo humano para Vitória ler e ela descobriu que tudo o que a mãe lhe havia falado era verdade. Devia existir uma mãe. Uma mulher que a pôs no mundo junto com um de seus pais.

- Por que eles não me contaram que eu tinha uma mãe?

- Não sei, minha filha, não sei... Você sabe onde eles moram?

- Fica atrás da floresta, numa casa no meio das árvores.

A mãe ficou subitamente pálida. Calou-se e foi à cozinha começar a cozinhar.

- O que aconteceu? – perguntou Vitória.

- Você não está com fome? Vou preparar nosso almoço. O que você gosta de comer?

- Eu como qualquer coisa, menos maçãs porque não quero ter um filho. Mas o que eu fiz de errado? Por que você foi embora da sala quando eu disse onde morava? Você não gosta da floresta?

- Eu... não, não gosto da floresta. Lá é muito perigoso. Nunca mais volte à floresta, entendeu?

- Entendi.

Vitória não entendeu. Não podia entender o que haveria de tão perigoso, já que ela vinha de lá. Não entendeu também como é que aquela mulher estranha se achava no direito de mandá-la fazer ou deixar de fazer alguma coisa. Vitória não queria voltar à floresta porque estava cansada de viver lá, mas não tinha medo da floresta, nem de seus pais.

Passou a tarde vendo televisão. Nunca havia visto nada tão mágico. Uma caixa de luz onde as pessoas ficavam brincando de ser quem elas não eram, falando de coisas que aconteceram com pessoas que não são elas... Desenhos, notícias, novelas, filmes. Mas ainda havia um martelo em sua cabeça perguntando quem era a mãe...

No dia seguinte, estava resolvido, voltaria à casa de seus pais para perguntar onde estava a mãe. Dormiu novamente de modo agitado, querendo que o dia raiasse logo.

Assim que amanheceu, Vitória correu pelo corredor até a cozinha, tomou café da manhã com seus novos pais e disse:

- Hoje vou à floresta falar com meus pais.

- Não você não vai. Lembra do que conversamos ontem?

- Ela tem razão, Vitória. A floresta é um lugar perigoso, ninguém vai lá.

- Mas eu vim de lá, meus pais estão lá e eu tenho que falar com eles.

- Você não vai e ponto final, não perturbe mais a sua mãe sobre isso. Tchau, querida, já vou para o hospital.

- Hoje tem plantão, então, até amanhã.

- Tchau querido. Até amanhã.

- Tchau...pai.

Vitória já sabia o que tinha que fazer. Ia tentar convencer a mãe a ir com ela à casa da floresta. Se a mãe não fosse iria sozinha.

- Mãe?

- Você já me chama de mãe, que bom! Diga, minha filha...

- Eu prometo que nada de errado vai te acontecer, mas, por favor, me leva na minha antiga casa?

- Vitória, eu não posso. Eu não vou te levar na floresta.

- Mas mãe, eu conheço bem a floresta. Não tem bicho perigoso, eu não vou me perder, eu conheço os caminhos.

- Eu conheço meus pais, eles não vão fazer nada pra nós.

- Vitória, eu não posso porque... Porque simplesmente eu não posso. Você entende? Eu não posso.

- Então eu vou sozinha.

- Não! Você não vai voltar lá, nunca mais, entendeu?

- Eu preciso saber quem é minha mãe. Saber qual deles é meu pai.

- Pra quê? Você já tem uma mãe, que sou eu. E já tem um pai. Por que você quer saber mais?

- Eu preciso e vou sem você.

- Não, espera. Deixa eu falar...

- Fala.

- Eu não devia, mas tudo bem. Há alguns anos, um grupo de cinco assaltantes, foi a uma cidade próxima daqui, eles assaltaram um banco, alguns estabelecimentos de comércio próximos ao banco e fugiram levando uma mulher. Havia um boato dizendo que esses assaltantes se escondiam nessa floresta, então, ninguém dessa cidade jamais teve coragem de entrar lá com medo dos assaltantes. E a polícia nunca conseguiu encontrar o caminho até a tal casa.

- Você acha que meus pais são assaltantes?

- Não sei, mas você agora entende meu medo?

- Não sei. Eles nunca fizeram mal nenhum pra mim. Me ensinaram a escrever, me alimentaram, me ensinaram a atirar, a cantar, a...

- Eles te ensinaram a atirar?

- Sim, quer que eu mostre como atiro bem?

- Não! Armas são muito perigosas. Você pode matar alguém usando uma. E eles te pediam alguns favores mais íntimos?

- Como assim?

- Nunca pediram pra você mexer no corpo deles, nunca mexeram em você?

- Não, eles sempre diziam que matariam quem mexesse comigo.

- Hummm, sei. E o que vocês faziam lá?

- Eles traziam comida pra mim, eu ajudava a arrumar a casa, cada dia um de nós cozinhava, eu sei cozinhar!

- Realmente, pelo que você me conta, eles foram muito bons pra você. Mas eles não atiravam nas pessoas que chegavam lá perto da casa?

- Não sei, acho que não, ninguém nunca foi lá. Me leva? Vamos conhecer meus pais?

- Eu não sei... Meu marido não ia gostar disso.

- Eu não falo nada pra ele, prometo!

- Ta bem, vamos, mas ficaremos pouco tempo.

- Vamos.

Vitória e sua mãe partiram no carro para a floresta. A mãe, assustada, olhando bem para o caminho para não se perder na volta. No fundo, no fundo, aquela vida bandida exercia uma certa atração nela. Cinco homens! Cinco homens num lugar abandonado por Deus. Onde não existia pecado, não existia vizinhos olhando, não existia ninguém, só os cinco homens. Ela sentia uma mistura de medo com ansiedade, tudo era aventura dali em diante.

Depois de andarem por algumas horas chegaram a uma trilha. Dali em diante teriam que ir a pé. Andaram por alguns minutos e chegaram à casa, vazia, ninguém por perto.

- E agora? Eles não estão aqui, Vitória!

- Daqui a pouco eles chegam, vem, entra comigo aqui na casa.

- Eles não vão se aborrecer se nós entrarmos?

- Não... Essa foi também minha casa. Vem.

Elas entraram e a mãe foi percebendo como tudo era limpo, arrumado, arejado. Entraram no primeiro quarto, dois beliches. No segundo quarto uma cama de casal.

- Esse era meu quarto...

- Com essa cama enorme? Alguém dormia com você?

- Não.

- Mas se eles são cinco e só tem mais quatro camas no outro quarto.

- É que cada noite um deles ficava acordado pra cuidar da casa.

- Sentinela.

- Acho que é isso. E aí, gostou?

- É tudo muito...

Um barulho de vozes interrompeu a frase da mãe. Os homens estavam chegando e já tinham visto a porta aberta. Sacaram as armas e entraram. A mãe segurou firme a menina e as duas se agacharam num canto da sala. A mãe fechou os olhos, tinha certeza que os homens iam atirar...

- Vitória!

- Pai! Não atira, sou eu.

- Ai que saudade, minha filha, onde você estava?

Todos se abraçaram, Vitória explicou o que tinha acontecido e explicou também quem era a “mãe”. Disse também ter descoberto que deveria existir uma mãe e só um deles podia ser o pai. Os homens se entreolharam e decidiram que um deles ia conversar com Vitória. Os outros quatro foram para o quarto e disseram para a “mãe” ir com eles. Ela foi.

- Vitória, sua mãe morreu quando você nasceu. Ela nem chegou a te conhecer. Mas nós não sabemos qual de nós é o pai. Por isso que decidimos todos cuidar de você.

- E como era a minha mãe? Bonita, inteligente, era como eu?

- Na verdade nós não sabemos como era ela.

- Não entendi.

- A sua mãe... a sua... Vitória, nós não conhecíamos a sua mãe. Ela ficou conosco por um acidente, ela não falava conosco, ela não tinha essa vivacidade que você tem, ela não tinha amor pela vida, entende?

- Então como foi que eu nasci?

- Nós somos cinco homens e homens têm algumas necessidades que só uma mulher pode oferecer, entende? Não, você não entende. Você não entenderia...

- Eu sei como são feitos os bebês, as freiras me ensinaram, mas eu achei que vocês tinham que se gostar pra que isso acontecesse.

- Temos, temos que gostar, sim, mas esse caso foi diferente. Esqueça tudo isso! Volte a morar aqui. Nós alguma vez te tratamos mal?

- Não, mas eu não sei... Agora eu tenho um pai só e uma m...

Nesse momento, Vitória ouviu um gemido vindo do quarto.

- Vocês estão machucando minha nova mãe! Seus bandidos.

Vitória correu para o quarto em tempo de ver a cena mais surpreendente da sua curta vida. A “mãe” com o sexo de um dos pais na boca, outro na sua frente, outro atrás e o último se esfregando em seu corpo. O pai que não estava no quarto puxou Vitória rapidamente de volta à sala.

- Não entre aí!

- Mas, o que está acontecendo? O que eles estão fazendo com minha nova mãe? O que estava acontecendo. Vocês estão machucando ela!

- Não, aquilo não machuca. Aquilo é bom tanto pra ela quanto pra nós, ela gosta disso, pode ter certeza. E um dia você vai gostar também. Mas por enquanto entenda uma coisa: Nós somos seus pais e gostaríamos que você voltasse a morar conosco. Agora, se você quer ir embora com essa mulher... a escolha é sua.

- Eu vou com ela. Eu gosto dela, mas eu quero que vocês me visitem também. Eu sinto saudades...

- Ah, minha querida... Como eu queria que seu pai fosse eu.

- Mas você é meu pai.

- Já que estamos conversando abertamente, vou te contar uma coisa: Eu nunca fiz nada com sua mãe. Eu não posso ser o seu pai, mas eu te amo como se você fosse minha filha e de mais ninguém. Você trouxe luz à minha vida, entende?

- Eu não sou filha sua?

- Você é minha filha. Você é a coisa que eu mais amo no mundo. Nunca diga que eu não sou seu pai. Fui eu quem te ensinou a escrever, a ler, lembra? Eu que cuidava de você quando você ficava doente... Eu te amo, minha filha.

- É tudo tão confuso pra mim... Por que você não quis ser meu pai? Por que você não quis nada com minha mãe? Ela não te agradava?

- Você tem quinze anos, eu tenho vinte e cinco. Quando você nasceu eu ainda era uma criança, além disso, eu sempre procurei fazer isso que eles estão fazendo com amor. Como a freira te ensinou, lembra? Eu não conhecia sua mãe, eu não faria isso com ela.

- E você não faz isso com mais ninguém?

- Já fiz. Eu tive algumas namoradas na minha vida. Mulheres que eu gostava muito. Mas foram poucas, duas ou três mulheres... Eu tenho que amar, entende?

- Acho que sim... Deixa eu ver o que eles estão fazendo agora?

- Não é bom que você fique vendo isso. Mas eu não te impeço de nada, você sabe.

- Eu não vou. Vamos dormir no sofá?

Os dois então dormiram fraternalmente enquanto a libido exalava do quarto.

Algumas horas depois, Vitória era acordada por sua mãe.

- Vitória. Vamos, já é tarde. Temos que voltar.

- Vamos. Tchau, meus pais queridos. Eu venho visitar vocês, sempre!

Novamente todos abraçaram a menina e as duas voltaram para o carro. Já estava escurecendo.

- Vitória, o que você conversou com seu pai?

- Ele me contou sobre minha mãe, contou sobre eles... E você, gostou do que fez?

- Como assim? Eu estava te esperando o tempo todo...

- Não, você estava fazendo outra coisa com meus outros pais enquanto eu conversava na sala. Eu vi.

A mãe freou o carro bruscamente. Estava pálida, com medo, novamente. Voltava à realidade.

- Você viu o quê?

- Vi você no quarto com meus pais. Colocando partes dos corpos deles na boca, no buraco de fazer xixi, no outro buraco, na mão... Eu vi. Quero saber se é bom.

- Você não viu isso. Você deve ter sonhado enquanto dormia no sofá.

- Não, eu vi, sei que vi, aquilo não era sonho não.

A mãe voltou a andar com o carro.

- Se você viu alguma coisa...

- Já disse que vi.

- Tá bem! Então não conte nada a seu pai, entendeu? Seu pai não pode saber de nada do que aconteceu lá. Ele não deve nem saber que viemos à floresta, entendeu?

- Entender, não entendi, mas não conto. Por que você não quer que eu conte? Não foi bom?

- Vitória, eu não quero mais falar nesse assunto com você, está bem?

- Eu estou começando a achar que seria melhor ter ficado com meus pais.

- Não diga isso. Você não sabe do que está falando.

O resto do caminho as duas permaneceram em silêncio. A mãe começava a acreditar que haveria um dia seguinte e que Vitória esqueceria de tudo aquilo. Vitória adorava tudo aquilo. Adorava aquele dia mais que todos os outros da sua vida. Não queria dormir, mas ao chegar na casa seus olhos já estavam fechando. A mãe também estava cansada.

Dormiram.

No dia seguinte Vitória ficou em seu quarto o tempo todo, não quis comer, não queria sair, nem ver televisão. Ficava parada e pensando... O dia inteiro. Quando o novo pai chegou em casa no final da tarde ele quis saber o que estava acontecendo.

- Vitória, vem cá.

- O que é?

- Sua mãe disse que você não comeu o dia todo, não saiu do quarto. O que está acontecendo?

- Não posso falar.

A mãe ficou pálida.

- Querida, o que está acontecendo?

- Acho que Vitória está doente. Não sei o que está acontecendo.

- Alguma coisa estranha aconteceu nessa casa. Alguém vai me explicar isso agora. Vitória, fala!

- Querido, acho que ela não está se sentindo bem, deixe ela ir para o quarto descansar.

- Eu estou ótima. Eu não estou sentindo nada de errado comigo. Só não quero comer.

- Vitória, não ligue para sua mãe, venha cá falar comigo. O que está acontecendo?

- Amor, deixa a menina em paz.

- Por favor saia da sala. Deixe-me conversar a sós com Vitória.

A mãe saiu com o carro. Sem destino, ou melhor, aparentemente sem destino.

- Agora me conte, Vitória, sente aqui em meu colo e me diga o que aconteceu.

- Ela não quer que eu conte.

- Esqueça o que ela disse. Ponha sua mãozinha dentro do meu bolso, isso, o que tem aí?

- Seu coisinho de fazer xixi.

- Você quer ver como ele é?

- Não.

- Mas eu vou te mostrar.

O pai, então abriu o zíper da calça e colocou seu membro pra fora.

- Pegue nele.

- Eu não gosto.

- Pegue, eu vou te mostrar como ele fica grande.

Vitória fez o que seu pai pedia. Ele esfregava seu membro no corpo de Vitória, pediu para que ela o colocasse na boca, ela assim fez, mas não tirou a roupa dela. Só pedia para que ela mexesse e chupasse. E ela fazia.

- Você está gostando, Vitória?

- É estranho fazer isso.

- É estranho? Você não acha gostoso? Eu gosto tanto...

- A mãe também.

Pausa.

- Como assim? Por que você disse isso?

- Hoje eu fui com a mãe na casa dos meus pais.

- Vocês O QUÊ?

- É, fomos lá e, enquanto eu conversava com um dos meus pais ela ficou brincando disso com meus outros pais.

- Disso o quê?

- De pegar nisso deles, colocar na boca, ela colocava em outros lugares também. Colocou até no buraquinho de fazer cocô...

- Eu não acredito. Você está mentindo.

- Não estou, não! Eu vi tudo!

- E ela deixou você ver?

- Ela não sabia que eu estava vendo.

- Aquela vagab... Aposto que ela foi lá agora. Onde é? Me mostra.

- Eu não quero sair...

- Vamos.

O pai pegou Vitória no colo, colocou-a no carro dele e partiram para a floresta. Vitória ia chorando, dizendo que a culpa era da mãe, porque os pais nunca tinham feito nada daquilo com ela. Se fizeram com a mãe é porque ela gostava. Sem perceber, Vitória estava deixando o “pai”cada vez mais nervoso.

Chegaram. As luzes estavam acesas.

- Venha Vitória, vamos entrar.

- Você não vai machucar meus pais.

Vitória e o pai entraram na casa chutando a porta. Na sala estava o pai da leitura, aquele que não era seu pai. Vitória correu para abraçá-lo e disse:

- Esse homem me fez fazer com ele o que minha mãe fez com eles ontem...

Essas palavras foram como um comando de ataque nos ouvidos daquele pai que pulou sobre o falso pai. Os outros quatro, que estavam no quarto se divertindo com a mãe, saíram do quarto erguendo suas calças e começaram a bater naquele monstro que molestara a pequena Vitória. Até que surgiu a mãe, também se ajeitando, saindo do quarto praticamente sem roupa, sem entender o que estava acontecendo.

- Meu Deus! O que vocês estão fazendo com meu marido?

- Ele abusou de Vitória. Nós vamos matá-lo.

- Não, parem, parem, deixem ele em paz.

Os homens pararam e chutaram aquele resto de homem pra fora da casa. Empurraram a mulher e disseram para eles nunca mais voltarem lá. E os dois foram embora deixando Vitória com os cinco homens.

- Por que eles fizeram isso comigo?

- Não sei, Vitória. Mas você não voltará mais àquela casa.

- Eu quero ficar com vocês.

- Claro minha querida, claro. Você ficará aqui com a gente.

Na manhã seguinte os quatro pais tinham ido embora. Vitória e o único pai que não era pai ficaram sabendo mais tarde que eles haviam seqüestrado a “mãe” e mais três mulheres da cidade, assaltaram um banco e fugiram do país.

Daquele dia em diante, Vitória passou a viver sozinha com seu pai, aquele que não era pai, que acabou sendo o único pai que sempre existiu.

Os anos foram passando. O corpo de Vitória começou a mudar. Já era praticamente uma mulher aos dezessete anos. Mas sua cabeça ainda pensava como aquela menina que nunca deixou de ser.

O pai... Para facilitar, o nome dele era Marcelo. Enfim, ele arrumou um emprego num jornal da cidade. Ele e Vitória viviam muito bem. Vitória já cursava a escola como todas as crianças da cidade, sentia-se bem, não queria que chegasse um dia seguinte. Era feliz daquele jeito.

Um dia chegou uma carta de um país distante. Era dos outros pais, eles convidavam Marcelo e Vitória para passar um tempo com eles e suas esposas. Sim, eles haviam se casado.

Vitória queria conhecer um outro país, Marcelo também. Resolveram que ao final daquele ano, quando Vitória completasse dezoito anos e terminasse os estudos, iriam para o estrangeiro. Até lá juntariam dinheiro, providenciariam os documentos dos dois e iriam para longe.

O ano passava, Vitória estudava, trabalhava nos afazeres da casa. Marcelo trabalhava, ajudava Vitória, trazia a comida. Tudo estava perfeito.

Um dia, Vitória sentiu-se muito mal, estava muito doente e Marcelo ficou acordado ao seu lado a noite inteira. Vitória acordou nos braços dele. Enroscada como uma serpente num galho de árvore. Marcelo sentiu-se estranho. Aquilo era muito estranho. Estava excitado com a companhia calorosa de Vitória.

Quando Vitória acordou sentiu-se estranha, sentiu-se mais viva, ali, enroscada em Marcelo. Os dois se abraçaram por minutos e minutos. Tudo estava mudando. Mas eles só se abraçaram.

Faltava pouco para o dia da viagem, Vitória já acabara as aulas. E agora, todas as noites eles dormiam juntos, enroscados um no outro. Só dormindo. Mas às vezes suas mãos passeavam inconscientemente pelo corpo um do outro porque enquanto dormiam seus instintos vinham à tona e ali eles eram um homem e uma mulher.

E eles continuavam sentindo-se bem com tudo aquilo. Vitória não queria que chegasse dia diferente daquele e Marcelo também.

Eis que um dia, os dois passeavam de mãos dadas pela cidade, um passeio de domingo. Eles foram vistos pelo marido da ex-mãe que, após algum tempo de tratamento na capital voltava à cidade. Ele reconheceu prontamente Vitória e o homem que o deixara paralítico.

As pessoas da cidade não sabiam quem era Vitória, nem Marcelo, pensavam até que todos os integrantes do bando tinham fugido.

O ex-pai chamou a polícia e uma gente estranha que matava por dinheiro e Vitória não entendia mais nada. O que estava acontecendo?

Vitória e Marcelo correram para longe dali, fugiram para o aeroporto no primeiro ônibus que encontraram. Foi uma viagem estranha, a polícia estava anunciando a fuga dos dois a todos os rádios de comunicação. Vitória e Marcelo se angustiavam.

Na primeira parada desceram do ônibus, ficaram na estação por alguns minutos, roubaram um carro e fugiram. Nisso uma viatura policial que ficava de plantão na rodoviária começou a perseguí-los. Perseguição policial em alta velocidade nas estradas em direção ao aeroporto. Parecia coisa de filme americano.

Conseguiram despistar o policial, na verdade ele sofreu um acidente e agora já era noite. O aeroporto estaria muito vazio, eles seriam facilmente descobertos, decidiram continuar a jornada no dia seguinte.

Pararam num motel de beira de estrada para passar a noite. Escolheram a suíte mais simples, não queriam chamar a atenção de nada, ficariam lá até amanhecer.

Quando chegaram no quarto, Vitória resolveu tomar um banho, estava cansada, suja, angustiada. Marcelo ficou admirando aquele corpo se banhando. Alguma coisa definitivamente estava acontecendo com eles.

Marcelo entrou no chuveiro, tomaram banho juntos e ele estava ficando excitado, já não conseguia esconder. Vitória já não se importava porque também sabia que alguma coisa estava acontecendo.

Voltaram ao quarto e, ainda úmidos deitaram na cama e se beijaram. Vitória então disse:

- Marcelo, eu estou muito angustiada. O que vai acontecer com a gente?

- Eu não sei, Vitória, mas eu te protegerei como se a tua vida fosse a minha. Eu não sei o que pode acontecer, mas vamos ficar fortes, lembra? Um dia de cada vez. O dia seguinte não existe e temos que fazer acontecer hoje.

- Eu quero que aconteça tanta coisa, mas eu não sei bem o que. Meu corpo dói, minhas costas estão duras.

- Eu vou te relaxar, meu amor.

Marcelo começou então a acariciar as costas de Vitória, tocando cada poro, beijando cada centímetro daquele corpo nu, chegou com a boca ao sexo úmido da mulher que desabrochava a sua frente. Usava a língua, os dedos e Vitória já não estava mais nessa dimensão.

Vitória estava numa outra galáxia, sonhando com seu Jardim do Éden, aquele era o seu jardim, Marcelo, o Adão, ela era Eva, intocada, esperando para comer aquela maçã suculenta, entregue pela... pela... respirando fundo... pela... serpente. E que serpente!

Ficaram fazendo amor como dois anjos sem sexo, sem pudor, sem medo, sem malícia. Era o amor puro se concretizando naqueles dois corpos ondulantes. Puramente selvagens, inocentemente instintivos. E dormiram como se não lembrassem de seus pesadelos.

De manhã acordaram e novamente fizeram amor, demoradamente, se enroscavam como duas crianças brincando. Vitória estava no céu, Marcelo embriagado com tudo aquilo.

Roubaram um carro diferente e seguiram para o aeroporto. Vitória beijava o sexo de Marcelo enquanto ele dirigia. Quase sofreram alguns acidentes por causa disso. Ao chegar ao aeroporto tudo parecia tranqüilo. Desceram do carro e foram ao balcão da companhia de aviação. Pediram as passagens.

Teriam que esperar mais três horas até o embarque. Não conseguiam parar de se abraçar, beijavam-se, não suportavam ficar separados nem por alguns segundos.

Faltava só meia hora para o embarque, eles estavam excitadíssimos com tudo aquilo. O auto-falante então anunciou que todos deveriam passar pela revista da polícia para embarcar porque estavam procurando dois foragidos.

- E agora, Marcelo? Vamos ter que nos separar. Está vendo aquela senhora ali? Pegue a mala dela, lá deve ter muitas roupas, nos trocamos e tentaremos passar pela polícia.

- Não sei se é uma boa idéia. Se nos virem pegando a mala já saberão que somos nós.

- Ela está distraída lendo a revista, nem vai perceber.

Marcelo fez o combinado. Os dois se esconderam no banheiro, no mesmo banheiro. Lá fizeram amor novamente. Vitória vestiu um vestido estampado, muito folgado para ela, mas aproveitou o tamanho do vestido para fingir uma gravidez, preencheu o espaço folgado com outras roupas. Marcelo colocou óculos de grau, que prejudicavam sua visão, usou um lápis de maquiagem e desenhou um bigode em seu rosto, desenhou mais sobrancelhas, pôs uma pinta no rosto de Vitória que agora já usava até um chapéu. Estavam... ridículos.

Chegava a hora do embarque. Se abraçaram, se beijaram e se separaram.

Vitória seguiu para a fila de embarque e já enxergava a polícia lá na frente. Marcelo esperou que mais duas pessoas entrassem na fila e entrou também. Observou cada passo de Vitória. Ela passou sem problemas. Caminhando pelo corredor ela ainda pôde ouvir os guardas gritando. O bigode de Marcelo estava derretendo por causa do calor, ele suava e a maquiagem escorria. Os guardas perceberam.

Vitória queria voltar. Queria ficar com ele, morrer com ele se fosse preciso. Os guardas pediam para que todos andassem rápido para não atrapalhar a prisão do suspeito. Os olhos de Vitória se enchiam de lágrimas. Ela foi empurrada para dentro do avião. Ela chorava. Ela não sabia o que iria fazer sem ele. Ela já não seria capaz, ela não queria um dia seguinte sozinha.

Sentou-se na cadeira do avião. Ouviu-se um disparo e Marcelo apareceu na porta de entrada, seu rosto sangrava e ele caiu no chão.

Vitória segurou-se na poltrona. Seus olhos já não viam mais nada com todas aquelas lágrimas surgindo. Mas ela teve que segurar-se para não perder o controle. Desmaiou. A aeromoça pensou que ela estivesse dormindo, não a incomodou.

Vitória teve sonhos horríveis, maçãs, Marcelo morto, um caixão, seu ventre sangrando, sonhava com lobos e policiais. Revirou-se a viagem inteira. Não podia acreditar. Marcelo morto. Morto. Longe, ela não pôde fazer nada.

Não acordou até a chegada, naquele país distante onde estavam seus pais. Percebeu que estava dormindo encostada no ombro de um homem. Que vergonha! Havia dormido a viagem inteira no ombro de um desconhecido. Levantou-se devagar.

- Desculpe, moço, é que eu...

- Oi, Vitória.

- Marcelo...