Me carreguei como uma onda no mar, com medo do teu abraço, com medo de te ver, com medo do que eu pudesse sentir. Me carreguei para o outro lado da praça, esperando o próximo passo, esperando você chegar e sorrir.
Mas o tempo não passava enquanto eu esperava você chegar. O relógio me incomodava na minha frente, os ponteiros iam devagar e sempre, em sentido oposto ao da gente.
Eu queria sentir teu cheiro, se eu pudesse sentiria o teu beijo apertando minha alma desesperada. Esmagando qualquer possibilidade de eu me reerguer depois daquilo.
Eu estava assustada. Mas sou uma mulher e não uma menina, eu fiquei de pé, me mantive erguida. Te cumprimentei, te oferecendo meu rosto, beijaste meu pescoço.
Me arrepiei e todos viam o que eu sentia, pensariam que eu era mais uma vadia, porque eu não tinha medo de te oferecer meu coração. E para eles eu não me oferecia, por isso eu era a vadia, porque para eles eu dizia ‘não’.
Eu queria você inteiro ao meu lado, como se afundássemos juntos num barco furado, nos deixando levar pelo que sentíamos e esquecendo daqueles que víamos.
Você me abraçou e disse:
- Vamos embora daqui, eu preciso sair desse lugar...
- Vamos mas não importa... eles vão nos encontrar...
- Por que, se é só você que eu quero?
- É noite. Vou na frente chego e te espero.
- Onde encontrarei teu corpo macio?
- Em um leito naquele vale sombrio...
- Me esperarás deitada?
- E nua, para ser por ti provada.
- Provada por mim?
- Claro que sim.
- Não resistirei.
- Não resista, ou morrerei.
- Vá, já te encontro. Ninguém saberá quem sou.
- Eu já não me importo com mais nada, mas vou.
Corri colina abaixo até o vale perto do rio. Tirei minhas roupas, tremia de frio. Deitei-me sob a lua, em uma pedra, toda nua.
Foi quando ouvi tua voz gritando meu nome, eu não entendia... Foi quando senti uma mão que me prendia. Eles chegaram, te prenderam, me amarraram. Te fizeram olhar, enquanto em mim metiam até gozar. De um em um, eles gritavam ‘vadia’, e eu chorando disse: ‘esperem que já vem o dia’.
E eles riam de mim e me rasgavam, mordiam meu corpo, meus olhos sangravam. Consegui unir todas as forças que restavam em meu corpo e gritei, com isso todas as ninfas, fadas e bruxas acordei.
Essas mulheres não suportavam o que viam e uniram suas mágicas contra os homens que riam. Um a um foram todos empalados, as varas saindo por suas bocas, seus ânus rasgados.As mulheres cuidaram de mim, deixaram-me junto com meu amor, enfim. Cicatrizaram todas as feridas, me senti como se nunca fora fodida.
Nos jogaram um encanto de proteção que duraria enquanto respeitássemos os desejos do coração. Eu e meu amado fomos elevados por uma névoa amarela, levitando numa explosão de aquarela.
Vivemos o resto da eternidade naquele bosque onde tudo terminou e a pedra onde sofri minha tortura hoje é berço de amor.
Casais novos que se apaixonam e querem se amar vêm à pedra, sabendo que por eles nossas almas vão olhar...
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